Religiosos dão aval à união de transgêneros

Religiosos dão aval à união de transgêneros

Rodrigo Craveiro
postado em 29/06/2016 00:00
 (foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)



Em uma decisão surpreendente, ao menos 50 clérigos islâmicos divulgaram um fatwa (decreto religioso) que autoriza os transgêneros a se casarem. ;Um homem transgênero pode se casar com uma mulher transgênero, e vice-versa, mas pessoas interssexuais ; nascidas com características físicas sexuais que não são compatíveis às noções binárias típicas de corpos masculinos e femininos ; não podem se casar, de acordo com o islã;, declarou o múfti Muhammad Imran Hanfi Qadri, líder da organização religiosa muçulmana Tanzeem Ittehad-i-Ummat.

Presidente da TransAction Alliance, entidade em defesa dos transgêneros, Farzana Jan saudou o fatwa. ;Era por isso que estávamos lutando desde o ano passado. Se o governo do Paquistão emitia documentos de identidade com as denominações ;transgênero feminino; e ;transgênero masculino;, então tinha que nos dar o direito ao casamento;, afirmou ao Correio a ativista transgênero de 32 anos, moradora de Peshawar. ;O fatwa nos reconhece como cidadãos, pede que nos deem o devido respeito e rejeita crimes de ódio e de violência motivados por orientação sexual e identidade de gênero.;

Para Qamar Naseem, coordenador do programa Blue Veins, direcionado à proteção dos transgêneros, o fatwa é uma ;janela de oportunidades; que deve ser explorada. ;Deve haver um debate acadêmico e religioso pacífico sobre o decreto, tornando a família um direito fundamental garantido pela Constituição. Estou muito feliz em ver que os líderes religiosos abriram um debate saudável, pois a comunidade de transgêneros vinha fazendo muito barulho no Paquistão e recebendo uma visibilidade sem precedentes.;

Farzana lembra que os transgêneros sofrem ;discriminações insistentes; em todos os aspectos da vida. ;Nós experimentamos preconceito no local de trabalho, temos negado o direito à moradia, não recebemos acesso aos serviços de saúde e obtemos dificuldades em registrar o nome e o gênero apropriados nos documentos de identidade;, disse.

Apesar de não existirem estatísticas oficiais sobre a comunidade de transgêneros no Paquistão, acredita-se que sejam ao menos 1 milhão. ;Sei que o fatwa nada significa, em termos de políticas, para o governo. Mas ele será o início de nossa luta;, prometeu Paro, 25 anos, cofundadora da TransAction Alliance e moradora de Peshawar. De acordo com a transgênero, o decreto não é vinculante e carece de base legal e legislativa, além de não ser endossado pelos líderes religiosos de todas as seitas muçulmanas. ;No entanto, é de grande valor para a comunidade de transgêneros, pois também fala sobre a nossa proteção e o nosso bem-estar;, comemora.


Eu acho...

;Para mim, esse fatwa significa muito. É o primeiro passo para me considerar um ser humano e um cidadão comum. Estou grata pelo fato de os líderes religiosos terem falado sobre isso. Normalmente, eles não abordam temas ligados à sexualidade. Os transgêneros têm acesso negado a todos os direitos. Com o casamento civil,
os benefícios, as responsabilidades
e as proteções virão.;



Paro, transgênero feminina,
25 anos, moradora de Peshawar


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