Um poeta acima do Nobel

Um poeta acima do Nobel

PLÁCIDO FERNANDES VIEIRA placidofernandes.df@dabr.com.br
postado em 15/10/2016 00:00


Bob Dylan dispensa apresentações. Entre as honrarias com as quais o cantor e compositor americano já foi brindado estão Pulitzer, Oscar, Grammy, Globo de Ouro... E, agora, um Nobel. É o único artista a conquistar os mais importantes prêmios da história. E nunca ninguém contestou o talento do autor de Like a rolling stone, The times they are a-changing, Jokerman, Blowin; in the wing, A hard rain;s a-gonna fall... Nunca, claro, até a Academia Sueca conceder ao trovador americano, na quinta-feira, a mais cobiçada e influente homenagem aspirada por um escritor em vida: o Prêmio Nobel de Literatura.

A surpreendente decisão abriu um debate frenético no meio literário. ;O nome de Dylan foi muito citado nos últimos anos, mas sempre se pensou que fosse uma piada;, reagiu, com sarcasmo, o escritor Pierre Assouline. Membro da Academia Goncourt, prestigiada instituição literária francesa, ele foi ácido ao criticar a escolha de Estocolmo. ;Gosto de Dylan, mas não tem uma obra. A Academia Sueca se ridiculariza. É degradante para os escritores.;

Vice-reitor da Universidade de Lisboa e especialista em literatura inglesa e americana, António Feijó pensa o oposto de Assouline. ;Devo confessar que acho que o Dylan está acima do Nobel;, disse ele ao site do jornal português Público. Para Feijó, a produção artística do ícone da contracultura dos EUA figura como uma das maiores das últimas décadas. Ele também põe John Lennon no panteão dos grandes da poesia produzida nos EUA.

No Brasil, a distinção foi festejada por nomes como o doutor em literatura Adalberto Müller. Professor da Universidade Federal Fluminense e autor de ensaio sobre a poesia do bardo americano, ele considera o prêmio merecido. ;O que Dylan e outros compositores fazem é uma maneira de levar a alta literatura às massas;, argumenta.

Na prática, a decisão da Academia Sueca sinaliza que a literatura pode ser pop. Não deve se resumir aos livros e aos hermetismos de escritores e críticos literários. Ela pulsa nas ruas, becos e favelas. Na embolada, no rap, no repente e na alma dos trovadores eruditos e populares. Está na fossa de Noel, no lirismo de Cartola, no uísque de Vinicius e na cachaça de Nelson Cavaquinho. E ganha força, sobretudo, quando tem uma boa música como aliada.

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