O começo do fim da "selva"

O começo do fim da "selva"

Autoridades francesas iniciam operação complexa para remover cerca de 8 mil refugiados e desmontar o acampamento de Calais, no norte do país. No primeiro dia, policiais retiraram 1.918 adultos e 400 crianças

Rodrigo Craveiro
postado em 25/10/2016 00:00
 (foto: Francois Lo Presti/AFP)
(foto: Francois Lo Presti/AFP)



Incerteza, medo e resignação marcaram ontem o primeiro dia da retirada de cerca de 8 mil pessoas do campo de refugiados de Calais, também conhecido como ;A selva;, no extremo norte da França, às margens do Canal da Mancha. A bordo de 45 ônibus, 1.918 imigrantes foram levados para centros de acolhimento temporários ; o governo de François Hollande colocou 451 instalações de prontidão para recebê-los. Pelo menos 400 menores de idade, desacompanhados, também foram recebidos por um centro instalado na parte sul do acampamento. A operação teve a participação de 1.250 policiais, atentos a prováveis focos de resistência entre os estrangeiros e a possíveis manifestações dos ultradireitistas da organização não governamental No Borders, os quais defendem a abolição das fronteiras.
Símbolo da crise migratória que assola a Europa, o acampamento também é foco de tensão entre os 126 mil moradores da cidade, preocupados com os episódios de violência que costumam irromper no local, cujas condições de vida são bastante precárias. ;Qualquer lugar da França será melhor do que Calais;, afirmou à agência France-Presse um sudanês de 25 anos que preferiu não se identificar. ;Vocês sabem se as mulheres grávidas vão para a Inglaterra?;, questionou a eritreia Samira, 34 anos, gestante de 6 meses, em entrevista ao jornal Le Monde. As retroescavadeiras devem começar a derrubada de tendas ainda hoje.

No início da noite, o brilho das fogueiras se misturava ao das labaredas que consumiam algumas das barracas ; um protesto contra o desmantelamento da ;selva;. Enquanto isso, Holande visitava a sede do Ministério do Interior, onde recebia um balanço da operação. ;Teremos sucesso neste desafio humanitário;, declararam os ministros Bernard Cazeneuve, titular da pasta, e Emmanuelle Cosse (Habitação). Benjamin Ward, vice-diretor da Divisão Europa e Ásia Central da Human Rights Watch (HRW), acusou a França de não promover arranjos alternativos para os solicitantes de asilo e os imigrantes que vivem em Calais. ;Isso inclui acomodação e cuidados para crianças desacompanhadas e outras pessoas vulneráveis;, explicou ao Correio, por e-mail. ;Estamos particularmente preocupados com os menores sozinhos, uma vez que todas as provisões fornecidas por Paris e por Londres parecem insuficientes para atender às demandas de todos eles.;

Violência
Ward admitiu que a HRW tem documentado ;denúncias críveis; de uso de truculência pela polícia contra os refugiados de Calais. ;É possível que algumas pessoas no campo tentem evitar serem removidas, inclusive por meio da violência. É importante que qualquer força utilizada pela polícia seja proporcional. As autoridades precisam demonstrar que podem oferecer uma opção viável a Calais, para que mais pessoas saiam de modo voluntário;, comentou. Ele não descarta o risco de separações familiares, em meio a um processo caótico. ;Nós vivemos isto durante a crise dos refugiados nas fronteiras dos Bálcãs ocidentais, no ano passado. Por isso, acho prudente que as autoridades assegurem alternativas viáveis para aqueles em Calais, antes de o campo ser limpo.;

Para Laura Cambpell, diretora da ONG Calais Action, faltou clareza às autoridades sobre os preparativos do desmantelamento de Calais. ;As opções de acomodação deveriam ter sido colocadas à mesa mais cedo. No entanto, o campo tem sido bastante pacífico, a maioria das pessoas está feliz em embarcar nos ônibus e em se mover para abrigos que esperam ser mais confortáveis, onde possam construir um futuro;, afirmou à reportagem. A ativista admitiu que a polícia continua a adotar a força bruta. ;Gás lacrimogêneo e violência têm sido um padrão comum nas vidas dos ocupantes de Calais;, lamentou.



Sob fogo cruzado após fuga de Mossul



Eles conseguiram escapar de Mossul, reduto do grupo Estado Islâmico (EI), mas centenas de iraquianos que procuram se refugiar na Síria estão encurralados na fronteira, sob o fogo cruzado dos extremistas e de inimigos. ;Um morteiro caiu aqui, e uma família iraquiana ficou ferida. Há confrontos dia e noite. Vivemos em perigo constante;, lamenta um iraquiano que fugiu de Mossul e da ofensiva lançada em 17 de outubro pelo Exército iraquiano para retomar o controle da segunda cidade do Iraque, ocupada por jihadistas. No deserto, centenas de compatriotas esperam em meio à onda de calor. A esperança é chegar ao acampamento de refugiados de El Hol, na Síria, a quilômetros de onde estão. Na sexta-feira, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) explicou ter recebido 912 iraquianos.



Eu acho...

;A retirada dos imigrantes e o fim de Calais não vão abordar os desafios que a França e outros países europeus enfrentam, em resposta à crise de refugiados. A cooperação eficiente e a partilha de responsabilidades entre os Estados-membros, e esforços para um melhor acesso ao asilo, para garantia do tratamento humano e para proteção de crianças são alguns dos elementos-chave de solução a longo prazo.;



Benjamin Ward, vice-diretor da Divisão Europa e Ásia Central da Human Rights Watch (HRW)


;Os governos da França e do Reino unido atrasaram o processo por tanto tempo que os refugiados vivem um momento confuso, estressante e preocupante. O campo de Calais não é um lugar onde as pessoas queiram viver. É um local para que elas permaneçam ali enquanto o asilo é processado ou enquanto esperam para entrar em território britânico, para se reunirem com suas famílias. Não existe outro lugar para ir.;



Laura Campbell, diretora da organização não-governamental Calais Action


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