A estética e a carreira

A estética e a carreira

O mercado de trabalho ainda é muito preconceituoso no que diz respeito ao visual dos funcionários. Essa característica aparece com mais rigor para as mulheres

Ana Paula Lisboa
postado em 11/12/2016 00:00
 (foto: Gabriela Studart/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Gabriela Studart/Esp. CB/D.A Press)

Unhas pintadas, maquiagem e sapato de salto estão entre os elementos visuais que os ambientes corporativos, especialmente os mais formais, costumam cobrar, claramente ou implicitamente, das mulheres. Segundo consultores de RH, as que não se adequam a esses padrões podem ser, sim, prejudicadas na carreira. ;No mercado de trabalho, os julgamentos que se fazem a partir da aparência das mulheres são um massacre. Mas um homem barrigudo e careca não deixa de ser contratado;, compara Tânia Fontenele, economista especializada em gênero e coordenadora do Instituto de Pesquisa Aplicada à Mulher.


;O padrão esperado pelo universo corporativo envolve maquiagem ; pelo menos, base e rímel incolor ; pois, sem ela, a mulher parece que não se preocupou com a ocasião; unhas benfeitas ; mas sem exagerar nas cores ;; salto alto, por demonstrar elegância; acessórios pequenos; e roupas não muito curtas ou decotadas. Assim, a mulher não vai errar, seja qual for o ambiente;, indica Daniela Verdugo, sócia diretora da FIT RH Consulting, administradora e pós-graduada em gestão estratégica de pessoas.
;Numa seleção, duas candidatas com a mesma competência técnica podem ser desempatadas levando em consideração o cuidado com a aparência;, admite. Ela percebe que o julgo é mais duro para as mulheres. ;Para o homem, basta cortar o cabelo e, se tiver barba, aparar.; No entanto, o grau de exigência depende do ambiente. ;Num banco de investimentos, onde as pessoas se vestem muito bem todos os dias, a funcionária que não se portar assim não será bem-vista e pode ser até abordada para pedir uma mudança;, diz.


;O cuidado com a beleza é inerente à nossa cultura ; prova disso é que as empresas de cosméticos continuam crescendo mesmo em meio à crise, e a maior parte das compras é feita por mulheres. Muitas brasileiras gostam de se arrumar, fazer a unha e o cabelo. O problema começa quando esses aspectos são impostos, e a mulher é obrigada a seguir esses padrões para se manter ou conseguir um emprego;, afirma Claudia Lemoine, diretora executiva e sócia fundadora da Dromos Consult, psicóloga e especialista em gestão de pessoas.


Amalia Raquel Pérez-Nebra, doutora em psicologia social, do trabalho e das organizações e professora da área na Universidade de Brasília (UnB) e no Centro Universitário de Brasília (UniCeub), concorda. ;Algumas mulheres acabam se divertindo com isso, pois veem, no salão de beleza, um lugar para falar da vida, desabafar, além de sair dali se sentindo mais bonitas. Por isso, o padrão estético não é estritamente ruim: ele é ruim quando a mulher se sente cobrada a segui-lo, não deseja fazê-lo e passa a sofrer isolamento social por isso.;


Claudia Lemoine defende que a imagem corporativa deve ser separada da beleza. ;Questões básicas de higiene pessoal e roupas adequadas é que devem ser cobradas.; Quando passa disso, trata-se de ;um processo de discriminação estética;, de acordo com Amalia Raquel Pérez-Nebra. É o caso de quando a empresa impõe que a funcionária alise o cabelo e use maquiagem. Segundo Claudia Lemoine, conselheira de Administração do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), ;o modelo de vestimenta e aparência no trabalho, em geral, vai ao encontro dos padrões que a sociedade estabelece e determina;. A especialista em RH pondera que, como a sociedade é permeada por preconceitos, o mercado de trabalho os repete.


Para piorar, além de cobrar ;cuidados; com o visual, o ambiente corporativo julga, em muitos casos, características estruturais, como cabelo, pele, tipo físico e personalidade. Sofrem com isso certos perfis de mulheres: as que não têm um estilo feminino de se vestir, as gordas, as que assumem o cabelo afro ou adotam rastafári ou dread, as que têm piercing e tatuagens, entre outras. ;No Brasil, na maioria das vezes, acontece uma discriminação sutil. Assim, a pessoa sente que há algo estranho, mas não sabe o que é e não tem como combater;, aponta Amalia Raquel Pérez-Nebra.
Segundo as consultoras em RH Claudia Lemoine e Daniela Verdugo, tatuagens, piercings e alargadores são mais aceitos em ambientes alternativos e informais. ;Com exceção de piercing pequeno de orelha e nariz, todos os outros são malvistos. A tatuagem também pode acabar sendo um fator de eliminação;, conta Daniela Verdugo. ;Dread e black power são menos problemáticos hoje em dia porque as empresas têm trabalhado para eliminar o preconceito;, percebe Claudia Lemoine. ;E o dread é ainda menos aceito. Além desses, também geram estranheza cortes e cores muito diferentes;, acrescenta Daniela Verdugo.


Com relação aos efeitos da idade sobre os cabelos, é muito mais comum ver homens grisalhos e, mesmo que o espaço de trabalho, institucionalmente, não discrimine mulheres de cabelos brancos, Claudia Lemoine observa que as trabalhadoras que assumem os fios alvos podem sofrer certa hostilidade. ;É uma discriminação que aparece por meio das pessoas, dos colegas;, diz.


No caso de gordas, a intolerância pode partir da própria empresa. ;A gente vê discriminação nos processos seletivos, sim. A mensagem que a pessoa passa é que, se negligencia a própria saúde, talvez não vá se dedicar tanto à empresa;, acredita Claudia Lemoine. ;De fato, em médio e longo prazo, o sobrepeso e a obesidade podem gerar problemas de saúde. Tudo isso levará a pessoa a começar a faltar. Quando é obesidade mórbida, entendo o lado da empresa de não contratar, porque há um risco envolvido;, comenta a professora da UnB e do UniCeub Amalia Raquel Pérez-Nebra.


A gordoativista Raila Spindola rebate esse argumento. ;Algumas vertentes acreditam que a raiz da gordofobia é a patologização, mas, não necesariamente, a pessoa gorda é doente. Sou classificada como obesa, mas não tenho problema de saúde, sou ex-atleta e me alimento bem. Massa corpórea pode gerar doenças, mas outras características também, como ser fumante. Por isso, acho que os empregadores cometem discriminação estética com as gordas, sim;, diz.

Diversidade

Segundo Claudia Lemoine, é válido que as instituições apostem em ferramentas de governança corporativa, como políticas voltadas a coibir discriminações, comitês, ouvidorias e caixa de denúncias. ;Quando um funcionário sofre com o preconceito de um colega, ele processa a empresa, que é corresponsável pelo que acontece no ambiente;, diz. ;Uma empresa que faz discriminação (estética ou de outro tipo) com funcionários ou potenciais funcionários, discrimina também os clientes. É uma estupidez querer restringir a mão de obra a um padrão, pois, se não há div

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