Correio Econômico

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Governo não quer frustrar o setor produtivo com as medidas que serão anunciadas hoje para estimular a retomada da economia. Mas não há ilusão: ainda levará tempo para que o crescimento volte com força

Vicente Nunes / vicentenunes.df@dabr.com.br
postado em 15/12/2016 00:00

A chave virou


O governo está convencido de que, com as medidas de incentivo à economia, que serão anunciadas hoje, os agentes produtivos vão começar a deixar o pessimismo de lado, o que será vital para reforçar a perspectiva de recuperação da atividade em 2017. Não há ilusão de que será um processo automático, até porque, como ressalta o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, o Brasil está enfrentando a maior recessão da história. O importante, acrescenta ele, é virar a chave e criar as condições para que o país volte a crescer.

Meirelles reconhece que houve frustração depois da posse do presidente Michel Temer, pois se acreditava que apenas a retomada da confiança decorrente da mudança de governo seria suficiente para aquecer a economia. Descobriu-se, porém, que a destruição do país era muito maior. O governo estava em situação de penúria, a ponto de não ter dinheiro sequer para pagar agências internacionais das quais faz parte e para honrar compromissos de embaixadas e consulados no exterior.

Com as medidas de hoje, que visam, sobretudo, simplificar a vida dos empreendedores, o governo não quer repetir a decepção. Por isso, tudo foi preparado com cuidado. A maior preocupação da equipe de Meirelles é não divulgar pacotes ineficazes, embalados como se fossem a salvação da lavoura, mas que, na verdade, estão mais para propaganda enganosa. Na visão do ministro, vencida a etapa de aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que limita o aumento dos gastos públicos, a hora é de consolidar o processo de recuperação, que, para ele, está em curso.

Os especialistas não têm dúvidas de que o governo precisa agir rápido. Mas ressaltam que de nada adiantará dar incentivos à produção se as taxas de juros não caírem. Com o custo de capital nos níveis atuais, não haverá empreendedor que se aventure a enfrentar riscos num ambiente tão hostil, principalmente o político. Para Tony Volpon, ex-diretor do Banco Central, o ideal é que a autoridade monetária pise no acelerador e corte mais rápido a taxa Selic, que está em 13,75%.

Nos tempos em que esteve no BC, Volpon era um dos maiores defensores de uma rígida política de juros. ;Os tempos, porém, são outros. Agora, a inflação está caminhando para o centro da meta. Há espaço para corte de pelo menos 0,75 ponto percentual na Selic em janeiro;, reforça. Economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas Gomes diz que o BC não pode se intimidar, pois a situação da economia é dramática. Do início de 2015 para cá, mais de 150 mil lojas foram fechadas. O calote, que atingia as linhas de crédito mais caras, chegou ao crédito imobiliário.

José Carlos Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), diz que, na melhor das hipóteses, o Produto Interno Bruto (PIB) do setor terá variação zero em 2017, depois de desabar 5,5% neste ano. No entender dele, chegou a hora de o governo dar mais facilidade aos negócios, reduzindo o excesso de burocracia. ;O manancial de regras representa 12% do valor de venda de um imóvel. Não há como conviver com um custo tão elevado;, frisa. Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Eletroeletrônicos (Abinee), ressalta que o PIB do setor, de 11,8%, voltou aos níveis de 1947. É um retrocesso que levará anos para ser revertido.

Para os economistas e empresários, a PEC do teto dos gastos abriu uma janela importante rumo à retomada da atividade. Mas não poderá haver vacilos. A reforma da Previdência precisa ser levada a sério. E, mais adiante, as mudanças nas leis trabalhistas. O Brasil necessita se livrar de vez do ranço do atraso que tanto custa às empresas e à população.

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