Diplomacia no muro

Diplomacia no muro

Na primeira visita de alto nível ao México, secretários de Estado e de Segurança Interna vão encontrar um governo apreensivo com a linha dura adotada por Donald Trump em temas cruciais para as relações bilaterais, como imigração e comércio

postado em 23/02/2017 00:00
 (foto: Yuri Cortez/AFP)
(foto: Yuri Cortez/AFP)



Uma consistente linha de resistência aguardava no México o secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, que desembarcou na tarde de ontem no país vizinho sob o impacto das medidas anunciadas na véspera pelo presidente Donald Trump para ampliar a acelerar a deportação de estrangeiros em situação irregular nos Estados Unidos. À espera da chegada do colega, a quem se somaria o secretário de Segurança Interna, John Kelly, o chanceler Luis Videgaray reiterou a oposição do governo mexicano às políticas de imigração ;unilaterais; anunciadas pela Casa Branca ; entre elas, em especial, a construção de um muro ao longo de toda a fronteira.

Ao lado de questões não menos espinhosas de comércio bilateral, as ;divergências públicas e notórias; apontadas por Videgaray estarão no centro da agenda da reunião que Tillerson e Kelly terão hoje com o presidente Enrique Peña Nieto. Dias depois de tomar posse, em 20 de janeiro, Trump deu ordens para a construção do muro e reafirmou a promessa de campanha de mandar a conta a obra para o México. Em resposta, Peña Nieto cancelou a viagem que tinha programado aos EUA para o dia 31 do mês passado ; com o propósito justamente de contornar o mal-estar causado, desde a disputa presidencial americana, por declarações de Trump (leia o quadro).

;O México é um país que quer construir pontes, em lugar de erguer muros;, afirmou o chanceler, que tinha prevista para a noite de ontem uma primeira reunião com o visitante. O governo de Peña Nieto anunciou que pretende ;trabalhar em favor de uma relação respeitosa, próxima e construtiva; com o vizinho e principal parceiro econômico. ;Temos divergências públicas, notórias, que ainda não resolvemos;, ponderou o chanceler. ;Há posições nas quais, naturalmente, o México não está disposto a ceder nenhum milímetro. Em outros temas, estamos abertos ao diálogo.;

Para o delicado esforço diplomático de aparar as arestas da campanha presidencial de 2016, os memorandos expedidos na terça-feira pelo Departamento de Segurança Interna representam mais um fator de tensão. Os documentos autorizam os agentes de imigração a abrir procedimentos sumários de deportação contra qualquer estrangeiro que tenha entrados nos EUA ilegalmente. Até então, prevalecia a política do governo Barack Obama, que priorizava a expulsão dos que exibissem histórico criminal. De acordo com Videgaray, o México considera a possibilidade de pedir proteção das Nações Unidas para os cidadãos radicados em território americano.

;É preciso negociar com firmeza, com inteligência, preservando nossa soberania e com a dignidade à qual todos os mexicanos estão se referindo;, argumentou o chanceler. Desde que Trump ratificou a decisão de construir o muro na fronteira, repetiram-se no país manifestações cobrando de Peña Nieto uma atitude firme diante de Washington. O Senado decidiu elaborar um decreto legislativo para fixar limites nas negociações bilaterais. O próprio Videgaray esteve na capital americana duas semanas atrás, para uma reunião preparatória com Tillerson. Os dois voltaram a encontrar-se na Alemanha, na semana passada, à margem de uma reunião entre titulares de Relações Exteriores do G20.

A guinada protecionista imposta por Trump no terreno econômico-comercial também estará à mesa nos encontros programados para hoje na Cidade do México. Ameaças como a de taxar as importações de produtos mexicanos ou mesmo de rever os termos do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta) já afetam a confiança das empresas no país. Em relatório sobre o panorama, o banco BBVA alertou sobre o risco de retração nos investimentos, como desdobramento das ;incertezas em torno das políticas econômicas da nova administração americana;.

;Fomos um grande aliado (dos EUA) na luta contra os problemas de migração e narcotráfico;, disse ao jornal canadense The Globe and Mail o secretário mexicano de Economia, Ildefonso Guajardo. ;Mas, se a relação for mal administrada, diminuirão os incentivos para que o povo mexicano siga cooperando em questões que estão no coração da segurança;, advertiu.



Derrota para
transgêneros


O presidente Donald Trump sinalizou ontem com a emissão de diretrizes para revogar disposições baixadas pelo antecessor, Barack Obama, para proteger os estudantes transgêneros de discriminação nas universidades. Uma delas, que se tornou objeto de disputa na Justiça em 2016, assegurava a eles o direito de escolher o banheiro (masculino ou feminino) que preferem frequentar. Sem adiantar detalhes, o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, indicou que as novas diretivas tratariam de ;garantir os direitos dos estados;. Em algumas unidades da federação, os governos moveram ações legais contra a orientação da administração Obama.





Relação apimentada

Veja alguns dos principais pontos de discórdia entre Trump e o México

Discriminação

; Como candidato, o atual presidente americano referiu-se aos mexicanos que migram para os EUA, generalizadamente, como ;homens maus;, ;criminosos;
e ;estupradores;. As declarações motivaram manifestações de rua e protestos diplomáticos.

Deportação sumária

; Em nome de honrar promessa de campanha, Trump prepara ordens executivas para ampliar e acelerar a deportação de estrangeiros em situação irregular.
O governo mexicano critica a ;imposição unilateral; de políticas para um problema de interesse bilateral.

Muro na fronteira

; Também conforme o que havia dito em palanque, o presidente reafirmou a decisão de erguer um muro ao longo de toda a fronteira e cobrar os custos.
O México insiste em que não pagará pela obra.

Comércio

; Trump ameaça impor tarifas a produtos mexicanos e acena com a possibilidade de rever ou revogar
o Acordo Norte-Americano de Livre-Comércio (Nafta), que inclui também o Canadá.

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