Temas deixados de lado nas escolas

Temas deixados de lado nas escolas

Especialistas criticam a retirada do ensino religioso e da discussão sobre identidade de gênero em salas de aulas da versão da Base Nacional Comum Curricular apresentada pelo MEC e entregue ao Conselho Nacional de Educação

RENATO SOUZA ESPECIAL PARA O CORREIO
postado em 08/04/2017 00:00
 (foto: Iano Andrade/CB/D.A Press - 17/2/12
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(foto: Iano Andrade/CB/D.A Press - 17/2/12 )


As mudanças propostas pelo Ministério da Educação (MEC) para o ensino fundamental estão causando polêmica entre especialistas. Isso porque a grade curricular que compõe a terceira e última versão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) exclui a orientação de se discutir identidade de gênero e retira o debate sobre ensino religioso das salas de aula. As mudanças foram debatidas por professores de universidades e contou com colaborações da população, por meio de uma consulta on-line no site do (MEC). A base, que deve servir de parâmetro para o que será ensinado em escolas públicas e particulares de todo o país, foi entregue ao Conselho Nacional de Educação (CNE).

Após parecer do conselho, o documento segue para aprovação do ministro da Educação, Mendonça Filho. Terminada essa etapa, as escolas terão dois anos para implementar o conteúdo. As duas versões anteriores previam que a diversidade sexual fosse debatida nas escolas. O ensino religioso também integrava a grade dos colégios de educação básica.

O professor Ivo Marçal Vieira Júnior foi um dos que integraram a comissão de especialistas que realizaram as alterações no currículo escolar. No entanto, Ivo fez parte das equipes que criaram as duas primeiras propostas, não participando da elaboração da versão final do documento. ;Durante as discussões dos especialistas, a discussão sobre identidade de gênero foi um dos pontos mais debatidos. Mas todos concordaram que é um assunto que deve ser abordado durante as aulas. Seria possível debater esse tema nas séries mais avançadas do ensino fundamental, mas não poderia ter sido excluído da base curricular. O mesmo ocorreu com o ensino religioso, onde destacamos a necessidade de se tratar sobre a diversidade religiosa. Deve-se focar no respeito à diversidade e nas diferenças do ser humano, seja por conta de religião, orientação sexual ou raça;, destaca.

Inglês
Outra mudança que preocupa especialistas é a decisão de incluir o inglês como disciplina obrigatória. Nas versões anteriores do documento, outras línguas estrangeiras poderiam integrar o conteúdo ensinado nas escolas. As mudanças valem para todos colégios, sejam públicos ou privados. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) não define especificamente o que cada escola poderá ensinar. Mas cria um cronograma e regras que se aplicam na hora de definir o currículo de cada unidade de ensino. A ideia é padronizar os conteúdos repassados aos estudantes, como ocorre nos países desenvolvidos.

O ensino religioso, que aparecia na grade das séries iniciais até as finais da educação básica, deixa de ser obrigatório. A psicóloga Ana da Costa Polonia, professora do curso de psicologia da Unieuro, critica as alterações no currículo. ;O ensino religioso é uma matéria que pode dialogar perfeitamente com o conteúdo de outras disciplinas. Não deve ocorrer no sentido de doutrinação, mas de trazer a abordagem do homem como um ser espiritual. A religiosidade na escola tem a mesma importância dos debates sobre a diversidade. Deve-se discutir as religiões como uma expressão do ser humano. Queimar templos ou achar que a minha religião é melhor do que a outra é uma atitude de ignorância e ódio que deve ser debatido nas instituições de ensino de forma crítica, mostrando que se deve respeitar as outras pessoas;, ressalta a especialista.

A professora discorda ainda da exclusão do debate sobre diversidade sexual do conteúdo programático. ;Eu penso que o gênero faz parte da vida. Então, retirar isso de uma abordagem escolar é excluir o assunto de um discurso de vida. As crianças entram em contato instantaneamente com homens, mulheres e transgêneros. Então, é preciso debater o ser humano como um ser diversificado e ensinar o respeito entre as pessoas. A escola não forma apenas trabalhadores, forma cidadãos;, completa Ana Polonia.

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