Estratégias para o Natal no azul

Estratégias para o Natal no azul

Comerciantes e empresários estão preocupados com a instabilidade política e econômica do Brasil, mas apostam que o aumento nas vendas registrados no Dia das Mães e no Dia dos Namorados se repita no fim do ano

» Luiz Calcagno
postado em 06/07/2017 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press - 5/3/17 )
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press - 5/3/17 )




Contratações temporárias e investimentos em produtos para o Natal chegarão mais tarde este ano para o comerciante do Distrito Federal. O motivo é a instabilidade econômica e política do país. Empresários da capital temem que, impactado pela crise na república, o consumidor compre menos no fim do ano. O feriado de 12 de outubro, Dia das Crianças, ajudará na escolha das estratégias para o maior período de venda do ano. Vale lembrar, porém, que o cenário de incerteza se agrava mesmo com os bons resultados para o setor no Dia das Mães e no Dia dos Namorados, que apresentaram aumento de 4% nas vendas.

Alguns estabelecimentos comerciais se preparam para apertar os cintos no Natal. Sócio-gerente da Kingdom Comics, no Conic, Gabriel Gonçalves de Sousa conta que os proprietários do empreendimento passarão mais tempo no trabalho, entre setembro e dezembro, justamente para evitar gasto com contratação temporária. Os empresários fizeram reuniões nas últimas semanas para traçar estratégias a fim de garantir um crescimento, mesmo pequeno. ;No quesito venda de produtos, os últimos três natais foram diferentes entre si. Em um, eu vendi muito produto de qualquer valor. Em outro, tivemos poucas vendas, mas com valores mais altos. No último, tivemos muita venda, mas de lembrancinhas;, conta Gabriel.

Para 2017, além de abrir mão de temporários, os donos da loja de artigos geek examinam investir em ofertas de preço mediano, como camisetas. ;São produtos que temos qualidade e é fácil trocar. Vamos manter a compra regular de quadrinhos e livros. Quanto aos importados, como miniaturas e brinquedos, vamos esperar para ver se o dólar baixa. Se isso não acontecer, vamos comprar menos e com o risco de chegar tardiamente;, explica o gerente da Kingdom Comics.

A dona da livraria e bistrô Sebinho, na 406 Norte, Cida Caldas, seguirá por outro caminho: contratará temporários. Segundo ela, nos últimos anos, cresceu a compra de livros usados. ;Temos um processo seletivo para temporários de novembro a fevereiro, no Natal e no período didático. Somos um sebo, e as pessoas podem comprar coisas bacanas por um preço mais acessível. Quem vai dar um livro e acha caro, nos procura, pois os nossos estão bem conservados e temos muita coisa boa. No ano passado, que foi ruim para o comércio, tivemos um aumento nas vendas para presente, o que não era tão comum. Acho que isso ocorre devido à crise econômica. As pessoas procuram alternativas para presentear;, avalia.

Na prática

Para o presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon), Júlio Miragaya, a tendência é que 2017 seja um ano sem crescimento. ;A incerteza é muito grande. Os dois indicadores reais da atividade econômica são os investimentos. Se investem, é porque sentem firmeza no quadro da demanda. Do outro lado, é o consumo. A principal sinalização é a variação dele, com as vendas do comércio e a demanda por serviços, indicadores revelando que a população está consumindo, o que se materializa na efetivação da compra. Nem um nem outro tem reagido;, destaca.

Confiança

O presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do DF (Fecomércio), Adelmir Santana, explica que o aumento nas vendas em maio (Dia das Mães) e em junho (Dia dos Namorados) tiveram como comparativo 2015 e 2016, anos piores economicamente do que 2017. ;As coisas continuam ruins, exatamente em razão dos fatores políticos. À medida que esperamos melhoria de confiança, o cenário retrocede e surge queixa ou denúncia contra o presidente (da República). Esperamos uma melhoria, que passará pelas definições do governo federal;, analisa.

Santana destaca que vários lojistas tiveram de fechar as portas no DF e que, por enquanto, comerciantes não estão pensando em estoques. ;Os nossos melhores indicadores têm, como comparativo, os últimos dois anos, nos quais as vendas foram um desastre. A cada ano, as contratações temporárias têm se retardado, pois ninguém quer contratar sem expectativa de retorno. Apesar disso, se passarem as reformas da previdência e trabalhista, serão sinais de melhora;, aponta.

O presidente do Sindicato do Comércio Varejista do DF (Sindivarejista), Edson de Castro, reforça que a insegurança ronda empresários e consumidores. ;As contratações de temporários deveriam acontecer em agosto, para que, no fim do ano, os funcionários estivessem treinados, mas isso só deve ocorrer em setembro. A população está preocupada, e isso atrapalha as compras. Como, até agora, tivemos um ano bom, conservamos o otimismo. O Brasil precisa se definir até setembro;, alerta.

A incerteza se reflete, também, em quem vende produtos e serviços para o comércio. O diretor do Sindicato do Comércio e Serviço de Informática do Distrito Federal e presidente da Câmara Temática de Tecnologias da Informação da Fecomércio, Marco Túlio Chaparro, conta que as vendas de softwares usados pelas lojas para registro de entrada e saída de artigos, contratação de funcionários e outras necessidades caiu 15%.


Palavra de especialista

Planejamento e compras antecipadas

;O planejamento é a primeira lição para se administrar. Eu proponho um Natal heterodoxo. As famílias que estão endividadas com cheque especial e cartão podem usar o adiantamento de férias e o 13; para se livrar dos juros. Além disso, o cidadão tem na cabeça o que vai receber em termo de valores, o que ele gasta e quem vai presentear e o que vai ter na ceia. O melhor seria as famílias anteciparem as compras e se planejarem para pagar dívidas contraídas. É uma grande oportunidade para equilibrarem o orçamento, definir prioridades e quitar dívidas.

Quem compra antes consegue preços melhores e tem margem para negociar. Tem tempo de pesquisar, e a internet é uma boa ferramenta. Além disso, a pessoa evita a correria de fim de ano e o estímulo ao consumismo. Também é importante ir às compras com dinheiro em espécie para negociar. Deixe o cartão de débito e, principalmente, o de crédito em casa. Se você não vê o dinheiro, se ilude e afunda. E o cartão de crédito é um dinheiro que você não tem. Mas, o mais importante, é o planejamento para pagar as dívidas. Há uma elevação violenta dos juros, e isso não vai baixar.;

Hélio Miziara Filho,
professor de graduação e pós-graduação em administração da UnB

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