A sorte de ter dois pais

A sorte de ter dois pais

postado em 06/08/2017 00:00
 (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)

Depois de sete anos de um casamento convencional, Edcharles Severiano, 34 anos, finalmente realizou o sonho da paternidade. Com Pedro Henrique no mundo, a vida do mais novo pai havia acabado de ganhar sentido. Apesar de muito feliz pela família que conquistou, o assistente de recrutamento de seleção e estudante de psicologia começou a enxergar seu verdadeiro eu. Quando o filho completou 1 ano, juntou forças para se separar da mulher e assumir a homossexualidade. A caminhada, nem sempre fácil, fez Edcharles enxergar no filho a chance de ser feliz sendo ele mesmo e tendo o apoio de quem ama.

Por algum tempo, foram apenas os dois contra o mundo. O pai sempre fez questão de estar por perto e auxiliar o filho de todas as formas. No colégio, não faltava às reuniões e o buscava sempre que possível. Quando Pedro Henrique queria ir ao cinema ou ter uma refeição especial, Edcharles não hesitava. O laço entre pai e filho só crescia com o passar do tempo.

Enquanto alguns não tiveram a sorte de ter um paizão especial, hoje, aos 8 anos, Pedro Henrique tem a chance de compartilhar o seu amor também com um ;novo pai; ; o companheiro de Edcharles, Marcos. ;Eu cresci sem meu pai presente e enxergo a fortuna que meu filho tem em mãos ao ter nós dois o apoiando e caminhando ao seu lado o tempo todo.;

O casal nunca escondeu a relação de Pedro Henrique. Devido ao apego e à convivência com o pai, ele sempre entendeu e respeitou a vida dos dois. Parece destino, mas quando o cônjuge de Edcharles, o biomédico Marcos Antônio Aragão, 27, foi apresentado à criança, há três anos, o amor foi à primeira vista. ;Desde que veio ao mundo, meu filho foi minha prioridade. Mas eu tive muita sorte, porque eles se tornaram grandes amigos e há muito carinho entre os dois.;

O filho, sorridente e feliz por estar entre os dois, não nega a alegria em ter Edcharles e Marcos como espelhos. ;Eu amo os dois. Amo sair com eles, assistir a filmes e brincar;, conta Pedro Henrique. Entre os benefícios de não ter somente um, mas dois pais, ele confessa que a cumplicidade existente é o melhor. ;Quando eu faço bagunça, o tio Marcos me ajuda a arrumar tudo antes de o papai chegar;, brinca.

A família gosta de curtir o tempo livre em casa. A programação favorita é juntar todos no sofá, estourar pipoca e mergulhar em um universo novo a cada filme. Na casa do pai, o filho tem a liberdade de ser o que quiser, contando com a ajuda de Edcharles e Marcos, que fazem questão de estar sempre por perto, orientando o melhor caminho. Para Edcharles, ser pai é ser um alicerce, é ajudar a construir o caráter de uma pessoa. ;É o filho poder olhar para o pai e ver um exemplo. É querer ser a melhor versão de nós mesmos por causa dele.;

Para Marcos, a chance de ser pai caiu de paraquedas no colo. Desde jovem, com a homossexualidade assumida, a possibilidade de exercer a paternidade parecia algo distante. E, antes mesmo de considerar métodos alternativos para realizar o sonho, a vida o presenteou com um filho para lá de especial. ;Logo quando o conheci, eu me apaixonei. Eu me sinto muito realizado por tê-lo na minha vida. O carinho é imenso;, relata emocionado.

Hoje, a relação é cercada de atitudes e sentimentos bons, mas principalmente, de gratidão ; do pequeno, por ter dois pais que o amam tanto; de Edcharles, pela chance de ter um filho tão especial; e de Marcos, por poder abraçar a paternidade.

De: Pedro Henrique

Para: Edcharles Severiano e Marcos Antônio Aragão

;Te amo pai, te amo tio Marcos. Beijão! Obrigado por cuidarem de mim. Amo vocês! Eu gosto de brincar, ajudar, jogar futebol. E eu gosto do tio Marcos porque eu sujo tudo e o tio Marcos limpa. E meu pai porque me leva para sair. Te amo.;

Presente na ausência

;Eu achei um diário dele, da época em que foi internado para se tratar do alcoolismo. Lá, tinha escrito: ;Coisas que eu preciso melhorar;. Em primeiro lugar, estava a família.; A caligrafia torta das letras escritas naquele caderno revelava o sonho pelo qual Francisco Juracir mais batalhava: ser uma pessoa melhor para a esposa e os quatro filhos, como conta o estudante Marcos Ferreira, 20 anos.

A luta contra o vício da bebida se encerrou há 17 anos, quando o policial civil de 40 anos foi colocado para fora de um bar e acabou atropelado na rua, por onde andava sem equilíbrio. Marcos tinha 3 anos quando aconteceu o acidente, o que o deixou sem muitas lembranças do pai. Passou a contar apenas com o que ouvia dos familiares e via nas fotografias.

O homem, descrito como a pessoa que sempre estava com um violão na mão e um sorriso no rosto, não conseguiu afastar o álcool, companhia próxima desde os 13 anos, mas outra batalha, que ele fazia questão de travar, foi vencida. Francisco não queria que seu erro fosse exemplo para nenhum dos quatro filhos e se escondia, bem longe de casa, após noites de bebidas. Era rigoroso para que o álcool não entrasse em seu lar e tentou dar todas as condições para que Marcos e os irmãos tivessem uma história diferente. ;Ele procurou deixar influências boas por onde passou, e se preocupava muito com o que ia acontecer depois, embora o futuro não tenha chegado para ele;, reflete o estudante.

À medida que o tempo ia passando para Marcos, surgiam experiências em que seu pai não poderia estar presente, como as comemorações do segundo domingo de agosto: ;Todo ano, havia na escola a homenagem de Dia dos Pais e eu nunca queria participar. Não porque eu guardava rancor, mas porque eu pensava: ninguém vai vir. Só que me faziam participar de qualquer jeito. Às vezes, quando dava, minha mãe aparecia. Mas você via aquele tanto de homem e minha mãe no meio. Algumas vezes, não ia ninguém. Nesses momentos, você sente falta, porque criança ainda não tem maturidade para lidar com isso.;

Aprender a encarar situações como essa foi possível depois de muito diálogo, como quando a mãe, Dalva Helen, 54 anos, sentou com os filhos, já mais velhos, para contar sobre o motivo do acidente de Francisco e de seu vício. Hoje, o jovem olha para trás com a sabedoria de quem encara a privação paterna há muitos anos, apesar de ela não ser uma completa ausência.

Francisco está em cada livro deixado na estante vasta de conhecimentos diversos, acumulados durantes cada um dos quatro cursos de graduação incompletos; na conta bancária deixada antes de morrer, com a quantia que pagou todas as despesas da carteira de motorista de Marcos; na família de cinco pessoas amadurecidas pela cicatriz da perda. E na afirmação do rapaz: ;Eu costumava falar: ;eu não tenho pai;. Mas eu tenho. Ele ainda é meu pai, ele que me colocou no mundo. Eu posso não o ter conhecido, mas ele é meu pai;.

De: Marcos Ferreira Prud

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