Correio Econômico

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Governo já começa a medir o impacto político de mais uma queda dos juros, agora, de 9,25% para 8,25% ao ano, e os estímulos para o programa de privatização e concessões

por Vicente Nunes / vicentenunes.df@dabr.com.br
postado em 31/08/2017 00:00
Agarrado nos juros

Em meio ao atoleiro fiscal do qual não se sabe quando o país sairá, o governo se agarra ao que pode para tentar manter uma agenda positiva no horizonte. O Palácio do Planalto conta, desesperadamente, com o anúncio de mais um corte na taxa básica de juros (Selic) pelo Banco Central na próxima semana. Não há nada, na avaliação da equipe do presidente Michel Temer, que justifique uma redução inferior a um ponto percentual, de 9,25% para 8,25% ao ano, o que colocará a Selic no nível mais baixo desde maio de 2013.

Temer acredita que o Comitê de Política Monetária (Copom) levará os juros para algo entre 7% e 7,5% até o fim deste ano. Com a taxa básica nesse patamar, aposta-se que boa parte do programa de concessões e de privatizações se tornará atraente aos olhos dos investidores. Com recursos extras garantidos, o risco de não se cumprir a meta fiscal de 2018, de deficit de até R$ 159 bilhões, ficará bem menor. Não passa pela cabeça de integrantes da equipe econômica emitir mais um recibo de incapacidade de cumprir o que prometeu. Bastou o vexame deste ano.

A queda de pelo menos mais um ponto nos juros é tiro certo. A inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deverá ficar abaixo de 3% no acumulado de 12 meses até outubro, movimento que pode, inclusive, se repetir em novembro. O IPCA só não será inferior ao piso da meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) neste ano por causa dos recentes aumentos da gasolina e da conta de luz. Pelo sistema de metas, a inflação pode variar entre 3% e 6%, sendo que o alvo central é 4,5%.

O quadro inflacionário está tão positivo que boa parte dos economistas vem reduzindo as projeções de inflação para agosto e para este ano. Em vez de um índice mais próximo de 0,5% para este mês, por causa dos preços administrados, acredita-se que o custo de vida ficará em torno de 0,3%. A se confirmar tal estimativa, o IPCA encerrará 2017 entre 3% e 3,2%, taxa sem precedentes em mais de uma década. Foi o efeito devastador da recessão que levou o consumo a nocaute.

Reajustes salariais
Os economistas, inclusive do governo, acreditam que, com inflação tão baixa, os sindicatos perderão parte dos argumentos para exigir reajustes salariais muito altos. Entre agosto e novembro, ocorrem as negociações coletivas de categorias muito organizadas, como a dos bancários, dos metalúrgicos e dos petroleiros. Aumentos contidos nos contracheques significam repasses menores para os preços e crescimento moderado do consumo. É uma visão terrível, mas que, para o Banco Central, é garantia de que o manejo do IPCA será mais fácil.

O BC, por sinal, defende que, em vez de olharem para a inflação passada, os sindicatos mirem, nas negociações salariais, as expectativas futuras do IPCA. Seria uma ajuda e tanto para reduzir o que os especialistas classificam de inércia ; carregamento da variação passada do custo de vida para os preços futuros. Com a atividade no chão, o espaço para a transferência de qualquer custo para o valor de serviços e mercadorias se fechou quase que por completo. À medida, porém, que a economia for se recuperando, indústria e comércio ficarão mais compelidos a ampliar as margens de lucro.

Nessa questão salarial, o BC também conta com os efeitos da terceirização e da reforma trabalhista para evitar bolhas no mercado de trabalho, como as vistas antes de o país ficar de joelhos e de o número de desempregados passar dos 14 milhões. A flexibilização nas regras de contratação fará com que o índice de desocupação diminua, mas sem provocar saltos espetaculares no consumo. Outro ponto importante que tranquiliza a autoridade monetária é a perspectiva de uma nova supersafra agrícola, que manterá os preços dos alimentos em baixa. E um dólar girando perto dos R$ 3,20.

Ou seja, acreditam auxiliares de Temer, o BC tem, diante de si uma oportunidade única para derrubar os juros a níveis mais civilizados, sem o risco de repetir o pesadelo de 2012 e 2103, quando a Selic cedeu para 7,25%, mas, seis meses depois, voltou a subir por causa dos descontrole inflacionário. Um grupo mais otimista do Planalto diz que, nesse contexto, os juros poderiam cair para até 6% ao ano. Mesmo nesse patamar, a política monetária manteria a eficiência para conter a inflação, pois a entrada em vigor da Taxa de Longo Prazo (TLP) acabará com as distorções hoje existentes no mercado de crédito.

Portas abertas
Confirmado o corte de um ponto na Selic na próxima quarta-feira, o BC manterá as portas abertas para novas quedas, mas sem se comprometer com um nível específico. A tendência da autoridade monetária será incentivar o mercado a construir o cenário para os rumos dos juros. Tudo o que o time comandado por Ilan Goldfajn não quer é indicar um caminho e, depois, ter de recuar. Já basta o presidente Temer mudar de posição de acordo com o nível da gritaria contrária.

Quanto ao discurso da importância das reformas, sobretudo a da Previdência, para derrubar a taxa básica, o BC dirá que elas são importantes para a consolidação, a longo prazo, de uma política monetária menos restritiva. Neste momento, o peso maior para se levar a Selic aonde quer o governo virá da inflação. E ponto.

Show de horror
Foi um show de horrores a conversa, ontem, entre o Ministério do Planejamento e representantes da Cemig, que exigem manter o controle de três hidrelétricas retomadas pelo governo.

Fracasso total
A direção da estatal mineira se preocupou mais em cobrar uma solução por parte do governo, inclusive por meio de empréstimos de bancos públicos, do que em apresentar saídas para o impasse.

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