Uma doença silenciosa

Uma doença silenciosa

postado em 03/09/2017 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Era janeiro de 2014 quando a advogada Vanessa Mota de Souza, 42 anos, sentiu uma forte dor de cabeça na volta das férias no Nordeste brasileiro. A moradora do Lago Norte pensou que era cansaço da viagem e não deu importância. Depois, teve dificuldades para enxergar com o olho esquerdo. A doença se agravou e ela chegou a não identificar as cores. Procurou um oftalmologista. A partir daí, começou uma saga até o diagnóstico.

;Um dia, acordei sem enxergar. Fiquei desesperada, mas os oftalmologistas não identificavam nenhum problema na minha visão. O quinto especialista me mandou procurar um neurologista;, conta. Na primeira consulta, o médico acreditou que era algo ligado a questões emocionais. ;Eu vivia muito nervosa por conta do trabalho. Tinha muitas tarefas e sempre estava com pendências para serem resolvidas;, lembra.

Antes mesmo do diagnóstico, em abril, teve outro surto. Vanessa acordou com o corpo dormente. Não conseguiu colocar brinco, abotoar uma roupa ou escovar os dentes. Os tremores nos braços e pernas tiraram a estabilidade. O caminhar era difícil. ;Eu fiquei completamente perdida. O meu desespero era maior porque os médicos não conseguiam dizer o que estava acontecendo. Na época, eu tinha uma rotina puxada e não me imaginava longe dos meus afazeres;, detalha.

O laudo da ressonância foi implacável: revelou duas lesões no cérebro e três na medula. O tratamento começava tardiamente, já havia perdas e Vanessa iniciou uma luta contra o tempo. ;Passei a pesquisar sobre a doença para entender o que estava acontecendo.; A medicação era injetável, o local ficava roxo e dolorido, fazia a advogada sentir-se mal e causava febre. A situação desencadeou uma depressão.

Após seis meses, um novo revés. O remédio parou de fazer efeito. ;Eu já sentia dificuldades de memorização e concentração;, lembra. Para quem tem esclerose, o cérebro envelhece cinco vezes mais rápido, ou seja, a perda da massa cerebral é acelerada. Vanessa trocou de remédio e segue o tratamento até hoje. ;Todo dia, acordo com a espada na cabeça. Esta semana, não consegui escrever. A gente fica pensando qual vai ser a próxima sequela;, lamenta.

Uma certeza Vanessa tem. Quanto mais rápido o tratamento, melhor é para a qualidade de vida de quem tem esclerose. ;A gente não sabe se vai andar amanhã, se vai enxergar. Eu tenho uma filha de 21 anos e meu sonho era construir um patrimônio para deixá-la confortável. A evolução da doença é galopante. No mesmo compasso, segue a nossa insegurança;, resume.

A doença
A esclerose múltipla é neurológica, autoimune e crônica ; as células de defesa do organismo atacam o próprio sistema nervoso central, provocando lesões inflamatórias cerebrais e medulares. A causa da doença ainda é desconhecida. As lesões nos nervos causam distúrbios na comunicação entre o cérebro e o corpo. Os sintomas, a gravidade e a duração variam conforme a pessoa. Alguns indivíduos podem não apresentar sintomas por quase toda a vida, enquanto outros têm sintomas crônicos graves que nunca desaparecem. Fisioterapia e medicamentos que suprimem o sistema imunológico podem ajudar com os sintomas e a progressão lenta da doença.

O que pensa o brasiliense

Veja as percepções dos entrevistados no DF sobre esclerose múltipla

49%
da população do DF acredita que é uma doença limitante

18%
dos entrevistados conhecem alguém com a doença

92%
dos brasilienses acreditam que é comum um paciente com esclerose múltipla ficar deprimido

55%
acham que ele não deve continuar trabalhando

50%
dos entrevistados acreditam que a doença tenha cura

36%
não saberiam qual médico procurar

64%
nunca foram ao neurologista

Fonte: Instituto DataFolha


ENTREVISTA/Edgardo Cristiano

Chefe do serviço de Neurologia Clínica e diretor da Unidade de Esclerose Múltipla do Hospital Italiano, em Buenos Aires

Qual é o diferencial para o tratamento da esclerose múltipla?
É muito importante o diagnóstico precoce. É mais trabalhoso tratar um paciente que está com quadro clínico avançado. No entanto, precisamos compreender o médico. Não há um marcador clínico no exame de sangue, por exemplo, que mostre a esclerose.

Isso quer dizer que os sintomas se confundem com os de outras doenças...
A característica da esclerose são surtos com sintomas que aparecem, causam danos e depois desaparecem. Os médicos não relacionam os primeiros sintomas à doença. Com o passar dos anos, o paciente vai ficando com uma incapacidade acumulada e é isso que levanta a suspeita. Os pacientes não costumam vincular os primeiros sintomas com os segundos. E os médicos, tampouco. Isso faz com que o diagnóstico demore.

O que é essencial para o tratamento da esclerose ser eficaz?
Temos que investir em prevenção e no diagnóstico precoce. Após isso, em tratamentos eficazes para tratar as lesões e controlar os surtos. Essa ainda é uma enfermidade em que a cada surto ou recaída aparecem mais lesões na ressonância.

Os remédios existentes são eficientes?
Os medicamentos disponíveis são bem mais eficazes no início da doença, quando não há incapacidade ou ela é pouca.

Há um perfil clássico de paciente?
Existe um aumento mais acelerado na América Latina que no restante do mundo. As mulheres entre 20 e 40 anos e de raça branca têm apresentado mais casos. Contudo, não há um perfil determinado mapeado cientificamente.


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