O BBB está míope

O BBB está míope

A capital, que chegou a ser chamada de Big Brother Brasília, em 2014, graças a um moderno sistema de monitoramento eletrônico, hoje enfrenta o sucateamento e a falta de instalação de novos equipamentos

» ISA STACCIARINI » WALDER GALVÃO*
postado em 09/01/2018 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)


Das 453 câmeras do sistema de vigilância do Distrito Federal, apenas 70 funcionam. Isso representa quase 85% dos equipamentos desativados. Muitas sofreram vandalismo ou nunca foram sequer ligadas. Outras 315 estão encaixotadas em depósito e esperam ser instaladas. A explicação para que apenas 15% estejam ligadas é o contrato rescindido com a empresa responsável pela manutenção em 2014. O prazo dado pela Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF) é que todas as 453 voltem a fazer gravações até março. Essa é a garantia da Unidade de Tecnologia da Informação e Comunicação da pasta. Essas câmeras fazem parte do projeto da Copa do Mundo e a previsão era de que 900 equipamentos fossem instalados até 2016, o que não aconteceu (leia Memória).

A empresa responsável por colocar em funcionamento as câmeras que já existem foi contratada, no ano passado, por aproximadamente R$ 1,6 milhão. Já a instalação dos outros 315 equipamentos guardados deve ocorrer até o fim de 2018 ; falta ainda definir outra empresa responsável pelo serviço e manutenção.

O projeto de videomonitoramento iniciado na gestão passada foi interrompido ainda em 2014, por falta de pagamento. A atual gestão retomou o projeto em 2016. ;Neste momento, a Secretaria de Segurança trabalha na contratação da empresa que fará a conclusão do projeto e a manutenção dos equipamentos até então instalados;, informou.

As câmeras estão espalhadas pela área central de Brasília, além de Águas Claras, Taguatinga, Ceilândia, Samambaia, Recanto das Emas e Riacho Fundo I e II. Há 51 distribuídas do Palácio do Buriti ao Setor de Embaixadas Sul.

A base de monitoramento funciona na Central Integrada de Atendimento e Despacho (Ciade), da SSP-DF, onde são recebidas as chamadas pelo número de telefone 190. Nela, há um telão para observação das imagens das poucas máquinas ativas. A vigilância é ininterrupta, segundo representantes da pasta, 24 horas, todos os dias da semana. Inclusive em manifestações e protestos as imagens são monitoradas no próprio local por policiais militares e civis.





Policiamento

O brasiliense cobra mais segurança e pede que o monitoramento por câmeras seja executado de forma eficiente para que haja ação policial em seguida. O comerciante Pedro Bolinja, 66 anos, tem uma loja na Rodoviária do Plano Piloto. Ele reclama dos casos de furtos e roubos. ;A violência faz parte da nossa realidade. Aqui, a gente vê todo tipo de coisa;, lamenta.

Pedro mora no Cruzeiro Velho e conta ainda que teve a casa invadida por bandidos. O crime aconteceu em 2015, mas até hoje os autores não foram presos. ;Perdi cerca de R$ 10 mil em celulares, joias e aparelhos eletrônicos. Se as ruas da capital do país fossem monitoradas corretamente, a situação seria outra;, destaca. Depois do ocorrido, o comerciante instalou o próprio sistema de segurança na residência. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, os locais de instalação das câmeras de monitoramento são definidos por meio de estudos que indicam as áreas com alta incidência criminal.

Nos locais mais afastados do Plano Piloto, os relatos sobre violência são mais constantes. Miriam Fuertes, 25 anos, tem uma loja de artigos para o lar em Taguatinga Norte. Nascida no Equador, ela chegou a Brasília há três anos. Desde então, o estabelecimento dela foi assaltado mais de cinco vezes. ;Todas as vezes vou à delegacia registrar ocorrência, mas nunca consegui recuperar nada. Se houvesse um sistema de filmagem nas ruas, e mais rondas policiais, tenho certeza de que a situação seria outra;, diz.

Consultor em segurança pública, o professor George Felipe Dantas ressalta que os meios de vigilância eletrônica ajudam a polícia a deslocar o efetivo para áreas de maior vulnerabilidade. ;Uma das vias de inteligência da segurança pública é o monitoramento eletrônico. Mas parece que existem problemas de gestão que impedem que essa ferramenta importante seja de fato implementada;, considera.

Povo fala

Você acha que as câmeras oferecem segurança?


Rosa Maria Ferreira,
52 anos, professora, moradora de Águas Lindas de Goiás
;Trabalho todos os dias na 308 Norte e não vejo monitoramento algum no meu trajeto. Eu acho que as câmeras que existem hoje não intimidam ninguém. Nós precisamos de mais policiais andando na rua para resolver essa situação. Só as câmeras não resolvem.;



Inês Pereira,
53 anos, doméstica, moradora de Alphaville (GO)
;Não acho que as câmeras ajudam a evitar crimes. Os bandidos não ficam intimidados por isso, eles também sabem que o sistema não funciona. Pode ser que a instalação de mais equipamentos ajude a resolver alguns casos, mas não a prevenir.;



Edu Cezar,
70 anos, administrador, morador da Asa Sul
;A gente nem sabe se existem câmeras instaladas em Brasília, imagina quem for cometer algum crime. Elas deveriam ser mais expostas e sinalizadas. Essa é uma boa saída para combater a violência, porém, ainda precisa de muito investimento.;



Zoel Amarildo,
55 anos, vendedor, morador da Santa Maria
;Venho todos os dias ao Plano Piloto e já presenciei diversas situações de violência, desde furtos a roubos. Eu não acho que as câmeras que existem hoje assustem qualquer pessoa. A gente não sabe nem se tem alguém monitorando isso.;


Análise da notícia

Cegueira eletrônica

; GUILHERME GOULART

Foi-se o tempo em que Brasília aparecia como uma das cidades mais bem monitoradas eletronicamente do Brasil. A vigilância imposta pelas câmeras e pelas centrais de vídeos rendia à capital federal, em meados dos anos 2000, o título de Big Brother ; não só em alusão ao programa de tevê, mas também ao livro 1984, uma das principais obras do inglês George Orwell. No entanto, 13 anos após a instalação dos primeiros equipamentos no Plano Piloto, assusta hoje a quantidade de aparelhos sem função e expostos à ferrugem no Distrito Federal.

Com 85% das câmeras desligadas, o problema

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