Tragédia humana

Tragédia humana

Regime de Bashar Al-Assad intensifica bombardeios contra o enclave rebelde, mata mais de 300 civis desde domingo e provoca forte condenação da comunidade internacional. Secretário-geral das Nações Unidas fala em tragédia humana

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 22/02/2018 00:00
 (foto: Amer Almohibany/AFP)
(foto: Amer Almohibany/AFP)

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Antonio Guterres, classificou a situação em Ghouta Oriental, distrito situado a 7km do centro de Damasco, de ;inferno sobre a Terra;. ;Eu acho que Ghouta Oriental não pode esperar. Esta é uma tragédia humana que se desenrola diante de nossos olhos, e não creio que possamos deixar as coisas continuarem ocorrendo deste modo horroroso;, afirmou Guterres. ;Quanto haverá de crueldade antes que a comunidade internacional tome uma ação decisiva e concertada para pôr fim a essa monstruosa campanha de aniquilação?;, reagiu Zeid Ra;ad Al-Hussein, chefe de direitos humanos da ONU.

A Anistia Internacional, por sua vez, acusou o governo do presidente sírio, Bashar Al-Assad, com a ajuda da Rússia, de alvejar intencionalmente civis e de cometer ;flagrantes crimes de guerra; em ;escala épica;. Também ontem, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) exigiu acesso ao enclave rebelde. ;As equipes médicas são incapazes de fazer frente a este grande número de feridos, e não há remédios nem material médico suficientes;, assinalou Marianne Gasser, representante do CICV na Síria.

Os números respaldam a preocupação da comunidade internacional e das organizações não governamentais. Segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), desde domingo, os bombardeios no enclave rebelde mataram 342 civis, incluindo 72 crianças e 45 mulheres, e deixaram 1.500 feridos. Somente ontem, 70 perderam a vida nos ataques aéreos, que feriram mais de 250. Várias localidades foram atingidas, principalmente Hamuriyé e Kfar Batna. Além dos mísseis, os aviões despejaram barris de explosivos, método condenado pela ONU e pelas ONGs internacionais.




Ante a iminência de catástrofe humanitária, o Conselho de Segurança da ONU deverá se reunir hoje, em caráter de urgência, a pedido da Rússia. Moscou interveio na guerra civil síria em novembro de 2015. Diplomatas admitiram à agência France-Presse a expectativa de votação de um projeto de resolução que pede cessar-fogo de 30 dias ; o que possibilitaria a entrada de donativos e a retirada de feridos. Suécia e Kuwait, autores da proposta, pretendem que ela seja votada ;o quanto antes;. Não está descartado que isso ocorra nas próximas horas. A campanha sírio-russa, associada ao apoio de milícias iranianas e do movimento libanês Hezbollah, fez com que Al-Assad retomasse mais da metade do país, expulsando de algumas regiões os extremistas do Estado Islâmico e os rebeldes.

Cerco

Durante entrevista com moradores de Ghouta, a reportagem do Correio pôde escutar o som de explosões e de aviões ; segundo eles, seriam caças russos bombardeando a região. Não bastassem os mísseis disparados do alto, os 400 mil habitantes sofrem, desde 2013, os efeitos de um cerco imposto por Damasco.

;Esses dias são como o inferno. A morte nos cerca em todos os lugares. Os gritos das crianças e das mulheres se equiparam ao barulho dos bombardeios, inclusive com barris recheados de explosivos;, relatou Yaman Al-Salmee, 21 anos. ;A situação humanitária é muito difícil. As crianças fazem apenas uma refeição a cada dois dias; não há leite, por causa do cerco. As estradas também estão intransitáveis por causa da devastação.; Ele admite que a vida em Ghouta Oriental está ;suspensa;. ;Os civis se refugiam em abrigos, não temos água nem eletricidade. A população enfrenta uma situação de terror, os hospitais estão repletos de feridos e os médicos não conseguem atender a demanda;, acrescentou. Fontes de Ghouta Oriental informaram ao Correio que 22 hospitais e clínicas foram completamente destruídos e inutilizados pelos bombardeios, nos últimos quatro dias.


Qusay Noor, 23, confirmou que boa parte dos estabelecimentos de saúde deixou de funcionar, por terem se tornado alvos diretos ; uma grave violação do direito humanitário internacional. ;O governo de Al-Assad tem utilizado helicópteros, navios de guerra, lança-foguetes, barris de explosivos e projéteis de artilharia, nos últimos três dias;, disse. De acordo com Noor, a vida em Ghuta ;é muito difícil;. ;Não bastasse o grave cerco imposto pelo regime, cinco anos atrás, estamos submetidos a todos os tipos de armas. Não há lugar seguro onde se esconder. A força dos mísseis e a intensidade da explosão penetram um prédio de seis andares até o fundo;, comentou. Em 2016, o rapaz perdeu o pai em um dos bombardeios.


O pomar que virou o inferno
Último reduto da oposição a Bashar Al-Assad, o distrito de Ghouta Oriental é dominado pela facção islamita Jaysh Al-Islam. A aliança jihadista Hayat Tahrir Al-Sham, associada à rede terrorista Al-Qaeda, também opera no local. A região chegou a ser classificada de ;zona de distensão; pela Rússia e pelo Irã, aliados de Damasco, e pela Turquia, que apoia os rebeldes. As hostilidades se intensificaram em meados de novembro. Ghouta é um antigo pomar de Damasco. Em julho de 2012, o Exército Sírio Livre lançou a batalha de Damasco a partir de Ghouta, o ;pulmão verde; da capital, onde os moradores costumavam passar o fim de semana.


Irã começa a resgatar corpos
As equipes de resgate começaram ontem a remover, por terra, os corpos das vítimas do acidente de avião ocorrido no último domingo em uma região montanhosa do sudoeste do Irã. No entanto, foram obrigadas a suspender as tarefas, no início da tarde, por causa do mau tempo. De acordo com o Crescente Vermelho iraniano, as operações de descida dos corpos foram suspensas ante os riscos para os socorristas. A tempestade de neve e os ventos glaciais também adiaram o transporte dos restos mortais por meio de helicópteros. Até o fechamento desta edição, o número de vítimas da queda do avião turboélice ATR-72, nas Montanhas Zahro, era desconhecido. Um oficial iraniano relatou à agência France-Presse que sete cadáveres tinham sido transportados pelo vale, enquanto uma fonte regional do Crescente Veremelho citou ;32 pacotes; removidos.


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