Nas entrelinhas

Nas entrelinhas

A renovação parece um pouco mais complexa, dada a mudança de dois terços de senadores e a quantidade de candidatos garantidos por mais quatro anos que disputam as urnas para outros cargos

Leonardo Cavalcanti leonardocavalcanti.df@dabr.com.br
postado em 20/08/2018 00:00


A mudança no Senado

Se a disputa pela Câmara oferece uma governabilidade mais ou menos tranquila para o futuro presidente que conseguir estabelecer uma boa relação com os deputados, o mesmo não se pode dizer do Senado. Explico. A chance de renovação nesta eleição entre os deputados é mínima, o que pode nos levar a repetir ; ou piorar ; a atual legislatura, coalhada de arrivistas, na maior parte do tempo comandados por Eduardo Cunha (MDB-RJ), preso desde outubro de 2016, mas que dominou o parlamento mais tempo do que deveria.

Um presidente eleito que consiga jogar com esse povo, na Câmara, pode chegar longe na aprovação de reformas necessárias à população, mesmo correndo o risco de ter de entregar dividendos aos tais arrivistas. Hoje, o tucano Geraldo Alckmin é o que conseguiu reunir o maior número de alianças em torno do próprio nome, pelo menos neste primeiro turno. É preciso lembrar que os governos petistas e tucanos estabeleceram uma relação com todos os partidos, numa mistura nada saudável para a democracia brasileira. A força do toma lá dá cá imperou nos últimos 20 anos e continuará imperando. Independentemente de quem ganhe a eleição.

A renovação no Senado, entretanto, parece um pouco mais complexa, dada a mudança de dois terços da Casa e a quantidade de candidatos garantidos por mais quatro anos que disputam as urnas para outros cargos, como governos estaduais ou chapas presidenciais. A mudança, numa das hipóteses mais radicais, pode levar a uma composição completamente diferente na sua maioria, o que leva o candidato eleito ao Planalto a desafios. Primeiro a compor com a maioria, depois conseguir uma relação positiva com o futuro presidente da Casa, que não está definido até o momento ; como parece ser o caso de Rodrigo Maia (DEM-RJ). A ver as cenas dos próximos capítulos.

Debate
Os debates são ótimos momentos para conhecer os candidatos, mas, ao mesmo tempo, são controlados. Um debate eleitoral na televisão é preparado dias antes. As equipes de campanha dos candidatos combinam as regras e, a partir delas, estabelecem as estratégias. Vide o segundo debate da série com os presidenciáveis, na Rede TV, na última sexta-feira. Na primeira metade, todos pareciam seguir o script. Não se saiu da combinação durante um bom tempo. O maior exemplo foi a escolha de quem perguntava para quem. Os políticos se dividiram em duplas, como o Correio mostrou ainda na noite de sexta-feira. Geraldo Alckmin perguntava para Ciro Gomes, que perguntava para Alckmin. Marina Silva e Alvaro Dias. Jair Bolsonaro, Cabo Daciolo. Henrique Meirelles, Guilherme Boulos.

A combinação vai até determinado momento, como numa luta de boxe estudada. Até que tudo mudou. Marina foi para cima de Bolsonaro ao retrucar uma resposta dele sobre as mulheres e as regras trabalhistas. Deixou o ex-capitão perplexo. ;Quando a gente é presidente, não pode fazer vista grossa, dizer que não precisa se preocupar. Precisa se preocupar. Precisa ser contra a injustiça;, disse Marina para Bolsonaro. O capitão ficou irritado, partiu para a grosseria contra uma mulher, perdeu, doutor. Expôs-se, como alguém que acha que ganhou ; ou empatou ; o jogo antes do fim. Ponto para a candidata da Rede.

Sem debate
Desde 29 de julho, o Correio tem publicado, aos domingos, reportagens especiais sobre temas que devem balizar boa parte dos debates durante as campanhas presidenciais, como educação, saúde e desemprego. Os 10 presidenciáveis melhor colocados nas pesquisas são convidados a apresentar as propostas sobre cada um desses assuntos.

Até agora, Bolsonaro não respondeu a nenhuma das solicitações. Ele se recusa sistematicamente a tirar dúvidas básicas sobre temas de alta relevância para a população, mesmo quando isso pode ser feito a distância e por escrito. Para a reportagem sobre educação, publicada em 29 de julho, todos os presidenciáveis tiveram duas semanas para enviar as propostas. No caso de Bolsonaro, a assessoria de imprensa atendeu a alguns dos telefonemas, mas não enviou sequer uma fala do presidenciável sobre o tema.

Bolsonaro também esteve ausente na reportagem sobre saneamento básico. Como na anterior, ele não explicou o motivo. O assunto da terceira reportagem foi segurança pública ; aparentemente, o tema preferido de Bolsonaro, a julgar pelas falas públicas do candidato. O Correio aguardou as propostas dele sobre o assunto. Nada. Na edição de ontem, sobre desigualdade social, mais uma vez, Bolsonaro não respondeu. É difícil acreditar acreditar em propostas quando nada é dito ou falado. Mesmo quando todos os outros candidatos fazem questão de responder.










Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação