República das chanchadas

República das chanchadas

Não há mais ideologia. Longe disso. A disputa política é pelo poder, que tudo pode e onde nada é proibido. Pois os poderosos exercem o controle do Estado, controle no sentido mais amplo e autocrático possível

Marco Antonio Villa
postado em 26/09/2018 00:00

Em 1899, um velho militante, desiludido com os rumos do regime, escreveu que a República não tinha sido proclamada em 1889, mas somente anunciada. Dez anos depois continuava aguardando a materialização do seu sonho. Era um otimista. Mais de 110 anos depois, o que temos é uma república em frangalhos, destroçada.

Constituições, códigos, leis, decretos, um emaranhado legal caótico. Mas nada consegue regular o bom funcionamento da democracia brasileira. Ética, moralidade, competência, eficiência, compromisso público, simplesmente desapareceram. Temos um amontado de políticos vorazes, saqueadores do erário.

Vivemos uma época do vale-tudo. Desapareceram os homens públicos. Foram substituídos pelos políticos profissionais. Todos querem enriquecer a qualquer preço. E rapidamente. Não importam os meios. Garantidos pela impunidade, sabem que se forem pegos, tem sempre uma banca de advogados, regiamente pagos, para livrá-los de alguma condenação.

São anos marcados pela hipocrisia. Não há mais ideologia. Longe disso. A disputa política é pelo poder, que tudo pode e onde nada é proibido. Pois os poderosos exercem o controle do Estado, controle no sentido mais amplo e autocrático possível. Feio não é violar a lei, mas perder uma eleição, estar distante do governo.

O Brasil de hoje é uma sociedade invertebrada. Amorfa, passiva, sem capacidade de reação, por mínima que seja. Não há mais distinção. O panorama político foi ficando cinzento, dificultando identificar as diferenças. Partidos, ações administrativas, programas partidários, são meras fantasias, sem significados, e facilmente substituíveis. O prazo de validade de uma aliança política, de um projeto de governo, é sempre muito curto. O aliado de hoje é facilmente transformado no adversário de amanhã, tudo porque o que os unia era meramente o espólio do poder.

Neste universo sombrio, somente os áulicos ; e são tantos ; é que podem estar satisfeitos. São os modernos bobos da corte. Devem sempre alegrar e divertir os poderosos, serem servis, educados e gentis E não é de bom tom dizer que o rei está nu. Sobrevivem sempre elogiando e encontrando qualidades onde só há o vazio. Nenhum dos três poderes consegue funcionar com um mínimo de eficiência e republicanismo. Todos estão marcados pelo filhotismo, corrupção e incompetência. E nas três esferas: municipal, estadual e federal.

A política nacional tem a seriedade das chanchadas da Atlântida. Com a diferença que ninguém tem o talento de um Oscarito ou de um Grande Otelo. A maioria dos nossos políticos são canastrões, representam mal, muito mal, o papel de estadistas. Seriam, no máximo, meros figurantes em ;Nem Sansão, nem Dalila;. Grande parte deles não tem ideias próprias. Porém, se acham em alta conta.

Resta rir. Quem acompanha as sessões do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal, as entrevistas dos membros do Poder Executivo e os candidatos aos governos estaduais e à Presidência da República, sabe o que estou dizendo. O quadro é desolador. Alguns mal sabem falar. Em certos momentos parecem fazer parte de alguma sociedade secreta, pois nós ; pobres cidadãos ; temos dificuldade de compreender algumas decisões. Mas não esquecem do ritualismo. Se não há seriedade no trato dos assuntos públicos, eles tentam manter as aparências, mesmo que nada republicanas. O STF tem funcionários somente para colocar as capas nos ministros (são chamados de ;capinhas;) e outros para puxar a cadeira, nas sessões públicas, quando alguma excelência tem de sentar para trabalhar.

Vivemos numa república bufa. A constatação não é feita com satisfação, muito pelo contrário. As notícias são desesperadoras. A falta de compostura virou grife. Quanto mais canalha, melhor. Os corruptos não ficam mais envergonhados. Buscam até justificativa histórica para privilégios. Insistem na ;tese; de que o brasileiro tem DNA de corrupção. Socializam o seu comportamento antirrepublicano para todos, como se o Brasil fosse a sua imagem e semelhança.

A presente campanha para o Palácio do Planalto reforça a leitura de que o Brasil caminha para a ingovernabilidade. Tudo indica que a crise política estrutural ; e não conjuntural ; deve se aprofundar após o processo eleitoral de outubro. A irresponsabilidade das elites chegou ao ponto máximo. Perderam a capacidade de comandar o país. Namoram com o caos. Pode ser um bom sinal. Afinal, o Estado democrático de direito fundado pela Constituição de 1988 está dando seus últimos suspiros. E sua superação é indispensável para a reconstrução do Brasil sob outras bases.

Certa vez, Gregório de Matos Guerra iniciou um poema com o conhecido ;Triste Bahia;. Bem, como ninguém lê mais o Boca do Inferno, posso escrever (como se fosse meu): triste Brasil. Pouco depois, o grande poeta baiano continuou: ;Pobre te vejo a ti;. É a melhor síntese do nosso país.

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