Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

As cigarras são heavy metal

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 18/10/2018 00:00
Tenho dormido com a orquestra das cigarras. Antigamente, elas só cantavam de rachar durante o dia. Mas, agora, resolveram tocar durante a noite para chamar a chuva. Parece uma orquestra de música concreta ao ar livre. Deve estar difícil mobilizar a chuva, por isso elas resolveram estender o canto pela noite brasiliana.

O canto das cigarras é puro João Cabral de Melo Neto: ;Se diz a palo seco/o cante sem guitarra:/o cante sem; o cante/o cante sem mais nada; se diz a palo seco/a esse cante despido;/ ao cante que se canta/sob o silêncio a pino;.

Dormi e acordei com o cante das cigarras. Mas o condomínio onde moro é uma festa ao alvorecer. É impressionante a quantidade de pássaros que aparecem com uma infinidade de cantos. Eles vem à procura de alimento em determinadas árvores. A algaravia que fazem é um espetáculo musical.

O que confere beleza, singularidade e charme ao condomínio onde moro é uma mata cerrada muito próxima, impondo uma convivência cotidiana com animais silvestres. Se você chegar à noite vai se deparar com alguma coruja buraqueira, enterrada nos vãos do calçamento, com os olhos alumiados. Quando o carro está bem em cima, quase a atropelando, ela voa abruptamente, com um facho intenso de luz voltando dos olhos como se fosse um farol.

Nos céus costumam planar como uma asa delta o gavião de cauda curta ou o carcará procurando alguma presa para atacar. Mas, apesar de toda a fúria predadora, é possível avistar o carcará perseguido em pleno voo por tesourinhas, bem-te-vis e até beija-flores em defesa dos seus ninhos.

Com seu voo elétrico, os beija-flores dão o ar de sua graça. Em nosso território, somos agraciados com o beija-flor do rabo-branco, o beija-flor-tesoura e o beija-flor-de-garganta-verde. Vocês sabiam que os beija-flores visitam cerca de mil flores por dia para adquirir a grande quantidade de néctar de que necessitam?

Somos brindados, ainda, com as visitas da pomba asa branca, da juriti-pupu, do periquitão-maracanã, do periquito-de-encontro-amarelo, da alma-de-gato, do anu-preto, do anu-branco, dos tucanos, do pica-pau-verde-barrado, do pica-pau-de-banda-branca, do joão-de-barro, do bem-te-vi, do suiriri, da tesourinha, da andorinha-pequena-de casa, da curruíra, do sabiá-laranjeira, do sabiá-de-barranco, da cambacica, do saí azul, do sanhaço-cinzento, do coleiro-baiano e do Fim-fim, entre outros.

E toda a sapiência ecológica que ostentei, eu surrupiei descaradamente de uma bela cartilha sobre os pássaros do Condomínio Quintas Bela Vista, elaborada por uma equipe constituída por Shirley Hauff (bióloga), Sandro Barata (fotógrafo), Gilberto Lacerda (pedagogo) e Sérgio Garschagen (jornalista). Eles conseguiram elaborar um guia, ao mesmo tempo, científico e lírico: O canto do Bela Vista.

O guia nos ensina que, pela observação dos pássaros, nós podemos aprender muito sobre as condições do tempo, as estações, a diversidade e a qualidade de nosso meio-ambiente. Nesta época do ano, tudo tem a orquestra das cigarras como fundo musical. Elas poderiam tranquilamente tocar no Clube do Choro ou no Porão do Rock.

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