Investimentos rumo ao Brasil

Investimentos rumo ao Brasil

Orientação liberal do novo governo, programa de privatizações e perspectivas de crescimento colocam o país em destaque frente a outras nações emergentes, segundo analistas. Valorização da bolsa reflete expectativa de entrada de recursos externos

GABRIEL PONTE*
postado em 14/01/2019 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press - 2/1/19



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(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press - 2/1/19 )


A expectativa de desaceleração da economia mundial em 2019 tem feito investidores internacionais voltarem os olhos para países que ofereçam boas condições para a aplicação de recursos. Nesse quadro, o Brasil, entre os países emergentes, ganha destaque. A orientação liberal da equipe econômica do novo governo é bem-vista pelo mercado, e muitos países que poderiam disputar espaço com a economia brasileira pelo direcionamento de recursos globais estão em situação menos favorável. O México, por exemplo, também acaba de empossar um novo presidente. López Obrador, porém, é ideologicamente de esquerda, o que provoca receio entre grandes bancos e empresas.

O foco em mercados emergentes não é à toa. Em dezembro passado, analistas passaram a cogitar até mesmo a possibilidade de os Estados Unidos entrarem em recessão neste ano. A preocupação parece exagerada, tendo em vista os últimos dados da maior economia global ; em dezembro, foram criadas 312 mil novas vagas de trabalho, bem acima das expectativas, o que fez a taxa de desemprego recuar para 3,9%. De qualquer modo, a guerra comercial iniciada por Donald Trump contra a China começa a afetar estruturas produtivas do país, aumentando a sensação de incerteza, num momento em que o embate do presidente com a oposição em torno do orçamento provoca a paralisação de diversos órgãos governamentais.

A cautela com o desempenho econômico norte-americano contagiou o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA). Divulgada na semana passada, a ata da última reunião do órgão destacou que a evolução da política monetária do país andará de lado com a atividade econômica. Dessa forma, o Fed, que anunciou quatro aumentos de juros no país em 2018, deverá ser mais ponderado neste ano, de forma a não prejudicar uma tendência de crescimento que deve, naturalmente, sofrer alguma desaceleração.

Opções
Com o receio acerca dos EUA, os emergentes tornam-se opções para alocação de recursos. Antecipando-se a essa tendência, o Ibovespa, índice que mede a lucratividade das principais ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (B3), acumulou valorização de 15,03% em 2018, enquanto a Bolsa Mexicana de Valores (BMV), no mesmo período, teve perda de 13,3%.

Países como Argentina, Turquia, África do Sul, Índia e Malásia também disputam a atenção dos investidores globais. Porém, de acordo com o economista César Bergo, a conjuntura doméstica é mais favorável. ;Eu não me surpreenderia se, em uma próxima reunião, o Copom (Comitê de Política Monetária) optasse por reduzir a taxa Selic. Assim, em um ano de inflação sem reação e juros baixos, o mercado de renda variável desponta como promessa;, afirma.

Bergo ainda destaca as recentes baixas das bolsas norte-americanas. Os índices Dow Jones, do setor industrial, Nasdaq, de tecnologia, e S, que abarca as maiores empresas, tiveram um ano difícil em 2018, puxado, principalmente, pela previsão de redução da demanda global. ;Os EUA estão, ultimamente, à sombra da recessão, ou seja, o volume de recursos que busca uma alternativa vai aumentando para outros mercados, com o Brasil na rota;, disse. ;Nosso país ainda tem muita capacidade ociosa. Passamos por quase três anos de recessão, ou seja, a indústria está ávida por produzir, o que pode não ocorrer em outros países;, completa Bergo.

Fernanda Consorte, estrategista de Câmbio do Banco Ourinvest, pondera que, apesar de o Ibovespa ter alcançado nova marca de fechamento na semana passada, com 93.658 pontos, o otimismo do investidor local é que tem movido a bolsa. ;Os fluxos financeiros captados pelo BC e pela B3 mostram o investidor estrangeiro saindo do Brasil, ou seja, o bom humor está sendo feito pelos locais;, explica. Segundo Fernanda, a volta do estrangeiro depende da execução das reformas anunciadas pelo governo.

Os dados do mercado de câmbio sustentam a análise da economista. Em que pese a recuperação mostrada nas últimas semanas, o real se desvalorizou 14,66% frente ao dólar norte-americano em 2018. Foi a terceira maior perda entre as moedas emergentes, atrás apenas da lira turca (28,25%) e do peso argentino (50,57%). Já o México viu o peso mexicano avançar 0,11% frente ao dólar.

*Estagiário sob supervisão de ODail Figueiredo

O Brasil e emergentes

Investidores miram cenários alternativos para contornar uma eventual desaceleração global e da economia dos EUA. Brasil é destaque, segundo especialistas

15,03% Foi quanto o Ibovespa, índice da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), se valorizou em 2018. Só nas duas primeiras semanas deste ano, o indicador registra alta de 6,5%, e já alcançou novo recorde.

47,3% É participação do investidor estrangeiro na B3. De acordo com especialistas, o retorno do estrangeiro ao Brasil está atrelado ao andamento das reformas econômicas no Congresso Nacional, além do cenário de segurança jurídica.

México
Historicamente, a Bolsa Mexicana de Valores (BMV) compete com a B3. No entanto, Brasil e México vivem realidades antagônicas. O novo presidente mexicano, López Obrador, é de esquerda e promete adotar políticas intervencionistas na economia, enquanto que Bolsonaro, de direita, tem apoiado a proposta liberal do ministro da Economia, Paulo Guedes.

Dólar x Real
Apesar do expressivo avanço do Ibovespa em 2018, o real teve forte queda em relação ao dólar (-14,66%). Foi o quarto maior recuo entre moedas emergentes, atrás apenas do peso argentino, da lira turca e do rublo russo. No fim do ano, porém, a moeda brasileira reagiu e, em 2019, afirmam especialistas, com o avanço de reformas, a promessa é de entrada de recursos estrangeiros no país, o que tende a valorizar ainda mais o real.

Confira o desempenho das principais moedas de emergentes frente ao dólar em 2018
Peso Mexicano +0,11%
Rupia indiana -8,19%
Peso chileno -11,31%
Rand sul-africano -13,86%
Real - 14,66%
Rublo russo -16,70%
Lira turca -28,25%
Peso argentino -50,57%

Enfraquecimento global
De acordo com o Banco Mundial (Bird, na sigla em inglês), o PIB global desacelera. Em julho, a instituição apostava numa alta de 3%, mas a última previsão recuou para 2,9%. Essa tendência vem motivando grandes investidores a procurarem alternativas, como mercados emergentes que apresentam boas perspectivas.

Desaceleração nos EUA
Boa parte dos economistas acredita que a maior economia do mundo, após 114 meses de expansão e em situação de pleno emprego, v

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