Reality de gastronomia na escola

Reality de gastronomia na escola

Para engajar alunos da educação de jovens e adultos de colégio público no Paranoá, professor criou projeto multidisciplinar nos moldes do MasterChef. Retornar à sala de aula depois de anos é um desafio, e a iniciativa foi uma maneira de motivar estudantes que trabalham e estudam

Isadora Martins*
postado em 19/05/2019 00:00
 (foto: Clara Lobo/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Clara Lobo/Esp. CB/D.A Press)

Quem diria que um reality show de culinária poderia inspirar um projeto escolar? O professor de português da Secretaria de Estado de Educação (SEE-DF) desde 2014 Ênio César de Moraes teve a ideia de replicar uma versão do MasterChef, exibido nos canais Band e no Discovery Home & Health, no Centro de Ensino Fundamental (CEF) 3 do Paranoá, onde funcionam classes da EJA (Educação de Jovens e Adultos) e do ensino regular. Cada turma ficou responsável por criar um restaurante com pratos típicos de uma região ou unidade da Federação. A tarefa dos estudantes não parou por aí: divididos em equipes, eles tiveram de ornamentar a sala de aula, recepcionar convidados, apresentar a origem da receita, pesquisar os valores nutricionais e elaborar um slogan para o estabelecimento. A exposição do trabalho ocorreu no último dia 7.

Graduado em letras pelo Centro Universitário de Brasília (UniCeub) e mestre em educação pela Universidade Católica de Brasília (UCB), Ênio explica que o objetivo do projeto multidisciplinar é tornar a escola e os professores mais próximos dos alunos. ;A iniciativa surgiu da necessidade de trazer algo que faça parte do cotidiano dos estudantes. O MasterChef é um programa famoso que tem relação com comida. E comida é sempre interessante;, brinca ele, que também é coordenador do ensino médio do Colégio Presbiteriano Mackenzie. ;Na EJA, principalmente, nós temos muitas pessoas que trabalham como domésticas e cozinheiras. Então, a ideia veio disso. É algo que elas dominam, e isso ficou nítido na apresentação do trabalho;, completa. Ainda de acordo com o professor de língua portuguesa, o MasterChEF03 permite que os alunos apliquem, na prática, o conhecimento adquirido em todas as disciplinas.

;Em ciências, por exemplo, eles estudaram valor nutricional. Em inglês, tiveram que traduzir a receita. Cada componente entrou com um pouquinho;, diz. Na avaliação da supervisora pedagógica do CEF, Ely Vieira de Sales, o projeto contribuiu para que os alunos se considerassem valorizados na instituição. ;Eles se sentem pertencentes à escola. Os estudantes da EJA costumam chegar descrentes de si, acham que não podem mais aprender e que não sabem de nada. Depois do projeto baseado no MasterChef, eles passaram a se ver como verdadeiramente são: muito importantes e capazes de aprender e, principalmente, ensinar;, diz. Ely destaca que a iniciativa também foi uma oportunidade para jovens e adultos se unirem e trabalharem em equipe. Participaram do projeto 480 alunos, sendo 300 das classes de adultos.

Incentivo da família
O pedreiro Berto Pereira, 31 anos, voltou a estudar este ano. Ele conta que não tinha vontade de retornar à escola porque estava há 16 anos afastado. ;Eu parei por problemas de família. Minha mãe teve dois AVCs e precisei ajudar meu pai a cuidar dos meus irmãos porque sou o mais velho;, conta. Quem incentivou o piauiense a tentar mais uma vez a escola foi a esposa dele. ;Minha mulher é professora. Eu me inspirei nela para recomeçar os estudos e estou gostando muito;, diz. Berto sentiu muita diferença entre o colégio que frequentou no Nordeste e o centro de ensino do Paranoá. ;Eu aprendi a ler muito pouco. Na roça, eu tinha só quatro matérias. Aqui, tenho sete. Senti um pouco de dificuldade;, afirma.
De acordo com o estudante, inglês é o principal desafio, porque é o primeiro contato dele com o idioma. O pedreiro tem uma rotina puxada: trabalha das 7h às 17h; depois vai direto para a aula. ;É um pouco difícil. O serviço braçal da construção civil é pesado. Às vezes, chego à sala dolorido e cansado;, conta. No entanto, para Berto, o esforço vale a pena: ;É um desafio que precisamos enfrentar;. O piauiense gostou muito de participar do MasterChEF03. Ele ficou responsável pela ornamentação da sala da 5; série A, que preparou um baião de dois. ;Eu adorei a experiência. Aprendi muito e me aproximei dos meus colegas;, diz. ;Nunca tinha feito nada relacionado a decoração. Foi muito legal ter contato com essa área;, completa.

Projeto de destaque
O MasterChEF03 superou as expectativas de alunos e professores. A estudante Ana Maria Costa, 20 anos, conta que, no início, não acreditava que o trabalho seria o sucesso que foi. ;Antes, parecia que poucos estavam participando. Mas, quando chegou o dia, todo mundo se ajudou e trabalhou;, afirma. Para Ana Maria, fazer o projeto foi uma experiência divertida. ;A gente se reuniu com os colegas e fez coisas diferentes. Não foi a mesma rotina de todas as aulas;, explica.
;Não imaginávamos que a iniciativa fosse chegar a esse nível de conhecimento, trabalho e esforço. Foi um projeto muito importante;, afirma a coordenadora pedagógica do CEF, Silvana Moura. De acordo com a educadora, de todos os trabalhos desenvolvidos na escola, esse foi a maior e mais bem-aceito pelos alunos. O idealizador do MasterChEF03, Ênio, também revelou estar satisfeito com o resultado: ;Fico muito feliz, porque o projeto funcionou e cumpriu o objetivo. Já fica o desafio para o próximo semestre;.

Paixão por aprender
Luiza de Sousa, 73 anos, ajudou a preparar o bobó de camarão da 6; série A, turma que representava a Bahia. Ela resume o projeto em uma palavra: ;lindo;. A cearense estuda no formato da EJA do Paranoá há três anos e é uma aluna exemplar ; só perde aula para tocar teclado na missa. ;Estou aqui para aprender. Se eu não tiver mais idade para me formar e arrumar emprego, pelo menos vou ter mais conhecimentos;, diz. A trajetória de dona Luiza nos estudos foi complicada. Ela começou a frequentar a escola aos 18 anos, no Ceará, mas teve de abandonar dois meses depois. ;Eu precisava trabalhar na roça e ajudar minha mãe a cuidar dos meus irmãos porque meu pai viajava muito;, conta. Aos 24 anos, Luiza veio para Brasília em busca de melhores condições de vida. Na época, trabalhava como doméstica e foi incentivada pela patroa a retomar os estudos.

;Eu era muito boa. Estava no fim da 3; série e tinha as quatro operações de matemática na cabeça;, comenta, orgulhosa. Um ano depois, no entanto, teve de largar a escola mais uma vez. ;Meu irmão chegou a Brasília e disse que, quando minha mãe e meu pai recebiam cartas minhas no Ceará, eles choravam;, conta. Ela decidiu, então, passar um tempo na terra natal com a família, mas retornou à capital federal um ano e meio depois. ;A vida no Nordeste era complicada. Eu trabalhava na roça, costurava e ainda tocava nas festinhas. Decidi voltar para Brasília;, explica. Por aqui, durante os anos em que foi casada, era difícil estudar: o companheiro não gostava. Dona Luiza teve duas filhas ; Anne, 40 anos, e Rejane, 35. Depois que ela se separou, a mais nova incentivou a mãe a estudar novamente.

;Um dia,

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