Aposta em molécula natural que neutraliza o coronavírus

Aposta em molécula natural que neutraliza o coronavírus

Em testes laboratoriais, molécula impede que ocorra a infecção e que o Sars-Cov-2 se multiplique em células atingidas. Testes em ratos têm os mesmos efeitos. Para cientistas holandeses, os resultados abrem novas frentes de abordagem contra a Covid-19

postado em 05/05/2020 00:00
 (foto: Paul Ellis/AFP - 22/4/20)
(foto: Paul Ellis/AFP - 22/4/20)


Cientistas da Holanda investigam como um anticorpo produzido pelo corpo humano pode ajudar no combate à pandemia do novo coronavírus. No estudo publicado na última edição revista britânica Nature Communications, eles descrevem como identificaram uma célula de defesa do corpo humano que impediu que o Sars-Cov-2 infectasse células cultivadas em laboratório e também ratos com a Covid-19.

A descoberta é um desdobramento de estudos que buscam tratamento para outro tipo de coronavírus, o que causa a síndrome respiratória aguda grave (Sars). ;A pesquisa baseia-se no trabalho que nossos grupos fizeram em anticorpos direcionados ao Sars-Cov, que surgiu em 2002/2003;, detalha, em comunicado Berend-Jan Bosch, professor-associado da Universidade de Utrecht e coautor do estudo atual.

Ao analisar uma coleção de anticorpos dos trabalhos investigativos, a equipe identificou uma molécula com potencial para combater o causador da Covid-19. Segundo Berend-Jan Bosch, esse efeito foi observado inicialmente em células cultivadas em laboratório. ;Isso mostra que esse anticorpo neutralizante tem potencial para alterar o curso da infecção no hospedeiro infectado, e também pode proteger um indivíduo não infectado exposto ao vírus;, detalha.

Nas análises laboratoriais, testou-se o anticorpo com células humanas infectadas pelo vírus da Covid-19 e em ratos na mesma condição. Os pesquisadores observaram que o anticorpo se liga a um epítopo ; substância que é reconhecida pelo anticorpo, fazendo com que ele seja ativado e trabalhe na proteção do corpo ; que está presente tanto no Sars-Cov quanto no Sars-Cov-2. Segundo Berend-Jan Bosch, isso também explica a capacidade da molécula de neutralizar ambos os vírus. ;Esse recurso de neutralização cruzada do anticorpo é muito interessante e sugere que, no futuro, ele pode ter potencial na mitigação de doenças causadas por outros coronavírus;, cogita.

No caso da Covid-19, os cientistas acreditam que os dados obtidos podem ajudar no desenvolvimento de medicamentos e vacinas. ;Essa descoberta fornece uma base sólida para pesquisas adicionais que poderão caracterizar melhor esse anticorpo e iniciar o desenvolvimento de novos tratamentos da Covid-19;, detalha Frank Grosveld, um dos autores do trabalho e professor da Academia de Biologia Celular, do Centro Médico Erasmus, também na Holanda.

Menos reações
O fato de o anticorpo identificado ser de origem humana, é um ponto extremamente positivo para novas pesquisas, pois os riscos de ocorrência de efeitos adversos são bastante reduzidos. De forma geral, os anticorpos terapêuticos convencionais são desenvolvidos, primeiro, em outras espécies. Só depois, são submetidos a um trabalho adicional para ;humanizá-los;, fazendo com que possam ser usados em testes clínicos. ;O anticorpo usado nesse trabalho é totalmente humano, permitindo que o desenvolvimento prossiga mais rapidamente e reduzindo o potencial de efeitos colaterais relacionados ao sistema imunológico;, detalha Frank Grosveld.

A expectativa da equipe é avançar com o aprofundamento do estudo e chegar a abordagens clínicas em poucos meses. ;Essa é uma pesquisa inovadora. É necessário muito mais trabalho para avaliar se esse anticorpo pode proteger ou reduzir a gravidade da doença em humanos. Mas esperamos avançar no desenvolvimento do anticorpo com parceiros. Acreditamos que nossa tecnologia pode contribuir para atender a essa necessidade mais urgente de saúde pública;, afirma Jingsong Wang, um dos autores do estudo e pesquisador da empresa biomédica holandesa Harbor BioMed.




"O anticorpo (;) é totalmente humano, permitindo que o desenvolvimento prossiga mais rapidamente e reduzindo o potencial de efeitos colaterais relacionados ao sistema imunológico;
Frank Grosveld, professor do Centro Médico Erasmus e um dos autores do estudo

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