Pra rebobinar

Pra rebobinar

Fitas cassetes seguem o mesmo caminho do vinil e retornam à cena por meio de selos e bandas independentes

» Rebeca Oliveira
postado em 09/11/2015 00:00
 (foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press. Brasil)
(foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press. Brasil)



Ela veio para ficar em 1963, viveu o auge nos anos 1980 e caiu no esquecimento nos anos 2000. Agora, a fita K7 ou cassete, uma senhora de 52 anos, promete voltar à ativa, em um movimento de fetiche pela nostalgia que tem invadido a indústria fonográfica. Rebobinar a fitinha com auxílio de uma caneta é uma sensação contrária à agilidade que prega o streaming e o MP3, mas ganha cada vez mais adeptos, principalmente entre as novas gerações.
Em matéria de consumo, as K7 vão bem. Elas não apenas são fabricadas, como têm dado bastante lucro. Nos Estados Unidos, a National Audio Company (NAC), uma das únicas empresas a produzir cassetes em solo americano, comercializou mais de 10 milhões de fitas no ano passado. Em 2015, a empresa registra um crescimento de 20% se comparada ao mesmo período do ano anterior.


Em grande parte, o retorno das K7 está atrelado ao crescimento de outro elemento vintage: o vinil. Muitos aparelhos que tocam bolachões têm aparato tecnológico para receber também as fitinhas. O bom momento também é impulsionado pelo interesse de selos e gravadoras independentes brasileiros em lançar bandas no formato old school.


Fita Preta K7, Vinyl Land e Inseto Tapes são exemplos de marcas que acreditam nas K7. ;Gravamos fitas para grupos do Brasil inteiro, sempre com bandas alternativas de selos independentes;, explica Max Power, da Fita Preta K7, uma manufatura que produz as fitinhas desde 2013, quando compraram um maquinário para fabricá-las. A sonoridade analógica e a imperfeição desse recurso obsoleto vira o trunfo e graça do processo. ;A K7 é um formato analógico, a vontade de cada banda é o que determina fazer mix analógico próprio para K7 ou algo digital;, completa, sobre o método de produção.


A princípio, a Fita Preta K7 seria apenas um negócio entre amigos, descompromissado com o lucro e mercado. Quando a procura aumentou, decidiram expandir a ideia. ;Ao contrário do vinil, em que é necessário um prensagem maior e com maior custo, a fita tem uma despesa menor e é feita artesanalmente. É o que mantém o romantismo das famosas mixtapes, que, creio, é o que seduz;, opina Max. Mesmo com tanto encantamento, para ele, ainda é cedo afirmar que o formato saiu das mãos de colecionadores e encontrou o grande público. ;Mas ainda faltam aparelhos para ouvi-las;, declara.

Formato carismático

A banda brasiliense Gulag e o produtor Adriano Cintra têm exemplares feitos pela Fita Preta K7 para chamar de suas. Lá fora, nomes como o MGMT e a banda She & Him estão entre as bandas que também acreditam no poder magnético das fitas. Gravado no ano passado e vendido este ano, o disco Adriano Cintra is dead foi lançado da forma vintage, em K7. Curiosamente, o paulista foi um dos integrantes do moderninho CSS (ou Cansei de Ser Sexy), grupo conhecido pelo legado de levar a música brasileira ao exterior com suas batidas eletrônicas. O cantor e produtor musical é um dos entusiastas das fitinhas, que coleciona desde a adolescência.


Os goianos da banda psicodélica Boogarins e os roqueiros do Apanhador Só, do Rio Grande do Sul, também recorreram ao que, na visão dos mais otimistas, pode vir a se tornar o novo vinil. ;Se alguma empresa voltar a reproduzir e fabricar fitas, e as bandas aparecerem com essa possibilidade de lançar nesse formato, de repente podemos voltar a ter equipamentos nas lojas, caminho que aconteceu com os bolachões;, acredita Alexandre Kumpinski, vocalista e guitarrista do grupo gaúcho. Quem quiser se arriscar sem comprar um aparelho convencional pode recorrer a um walkmans. Em sites de venda, eles são comercializados por preços módicos, a partir de R$ 30.


;É um formato carismático, uma espécie de experimento. Há vários pequenos porquês para gravarmos em fitas cassetes, como apoiar a banda e levar uma lembrança para casa;, comenta. Segundo ele, em sua esmagadora maioria, o público consome música em MP3 ou streaming. Por isso, ao optar pelo formato físico, a banda escolhe o mais criativo possível para criar um diferencial e estreitar os elos com os fãs. ;O processo é bem caseiro. No estúdio, elas são reproduzidas de duas em duas. Exige um esforço da banda;, explica. No projeto Acústico-sucateiro, segundo disco da banda, quem levasse cinco fitinhas usadas aos shows ganhava uma nova. A dinâmica fazia parte da atmosfera do álbum, gravado com instrumentos reciclados.

; Entenda
Invenção da marca holandesa Philips em 1963, as fitas cassetes (caixinhas, em francês) tradicionais têm a informação gravada em formato analógico. Ou seja, o próprio som é registrado nela, sem interferências ou correções digitais. O processo de produção é prático e barato ; por isso há tantos estúdios caseiros pelo país.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação