Sob domínio da violência

Sob domínio da violência

Forças do governo reprimem, com violência, manifestação de opositores em Caracas. Ao menos uma pessoa é morta e 230 ficam feridas. Nicolás Maduro entrega decreto de convocação da Constituinte ao Conselho Nacional Eleitoral

RODRIGO CRAVEIRO
postado em 04/05/2017 00:00
 (foto: Ronaldo Schemidt/AFP)
(foto: Ronaldo Schemidt/AFP)



Às 13h51 (14h51 em Brasília), um sorridente presidente Nicolás Maduro ensaiava passos de salsa, na sede do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), depois de entregar o decreto de convocação da Assembleia Constituinte. A cerca de 6km dali, na Autopista Francisco Fajardo, tanquetes ; pequenos veículos blindados ; avançavam contra a multidão, enquanto militares da Guarda Nacional Bolivariana despejavam gás lacrimogêneo e disparavam balas de borracha e ;metras; (bolas de gude) contra os manifestantes.

Durante os confrontos, o tanque de gasolina de uma motocicleta da polícia foi atingido por um coquetel molotov e explodiu, envolvendo em chamas dois ativistas, em Altamira, bairro a oeste de Caracas. Um deles foi hospitalizado, com risco de morte. Sob o lema ;Contra a fraude Constituinte;, a marcha começou às 10h (hora local), contou com os 112 deputados da coalizão opositora Mesa de Unidade Democrática (MUD) e tinha como destino a Assembleia Nacional.

Até o fechamento desta edição, o saldo da repressão apontava pelo menos um morto e mais de 230 feridos, entre eles os parlamentares Freddy Guevara, vice-presidente da Assembleia Nacional (leia Duas perguntas para), Miguel Pizarro, José Manuel Olivares, Julio Montoya e Ivlev Silva; além de jornalistas. O adolescente Armando Cañizales, 17 anos, morreu depois do impacto de uma bomba de gás lacrimogêneo contra o peito. Um tanquete atropelou pelo menos três pessoas, em Altamira, uma delas foi internada em estado grave. Tudo foi registrado em vídeo.

;Nunca vi nada igual como a repressão de hoje (ontem);, admitiu ao Correio Antonieta Mendoza López, mãe do preso político e líder opositor Leopoldo López. ;Foram emboscadas contra manifestantes pacíficos, que não carregavam armas e exerciam o direito constitucional de protestar. Foi gravíssimo o que ocorreu aqui;, disse, por telefone. Ela contou que participou dos protestos em Altamira e utilizou uma máscara. ;Uma bomba de gás lacrimogêneo caiu próximo aos meus pés. Foi tão forte que os gases quase me fizeram desmaiar.; Antonieta mostrou indignação com o comportamento de Maduro no CNE. ;É um ditador, que arremete contra a população. Já temos 32 mortos. Ele é o responsável por essas mortes.;

No fim da tarde, Guevara falou com a reportagem, por telefone, poucas horas depois de ser socorrido. ;Foi uma das repressões mais brutais. Não apenas feriram a nós, deputados, como usaram tanquetes para passar por cima de vários manifestantes. Um deles teve a cabeça destroçada;, relatou. Uma das principais lideranças da oposição prometeu intensificar a pressão nas ruas. ;Não vamos nos calar contra a ditadura. Aumentaremos a pressão, de forma sensível. O governo de Maduro está na etapa final;, garantiu. Guevara não economizou críticas à manobra de Maduro de tentar reformar a Carta Magna. ;Isso não é uma Constituinte. A Constituição que eles estão buscando... eles determinam em quem podem votar e quem pode ser eleito;, ironizou.

Enquanto as forças de Maduro ampliavam a repressão, a procuradora-geral da Venezuela, Luisa Ortega Díaz, concedia uma entrevista reveladora ao jornal The Wall Street Journal, durante a qual ficou visível a ruptura dentro do chavismo. ;Nós não podemos exigir um comportamento pacífico e legal dos cidadãos se o Estado toma decisões que não estão em conformidade com a lei;, alertou a advogada de 59 anos, que defendeu a atual Carta Magna. ;Essa Constituição é imbatível. Esta é a Constituição de (Hugo) Chávez;, sublinhou.

;Voto universal;
Ao entregar o decreto ao Poder Eleitoral, Maduro garantiu que a escolha dos membros da Assembleia Constituinte ocorrerá ;livremente através do voto universal e secreto nas próximas semanas;. ;Os integrantes da Assenbleia Nacional Constituinte serão eleitos nos âmbitos setoriais e territoriais, sob reitoria do CNE (;), com o interesse supremo de preservar e aprofundar valores constitucionais de liberdade, igualdade e justiça;, sustenta um dos artigos do documento. ;Convoco uma Assembleia Constituinte cidadã e de profunda participação popular, para que nosso povo, como depositário do poder constituinte originário, com sua voz possa decidir o destino da pátria;, declarou Maduro.

Por meio de comunicado divulgado pelo Ministério do Poder Popular para Relações Exteriores da Venezuela, Maduro denunciou a ;insurgência armada fascista e antipopular por parte de setores da extrema-direita;. ;Eu ordenei a ativação de um Comando de Operações de Buscas para localizar aqueles que pegaram em armas contra o povo;, disse. A oposição acusa o próprio governo de apoiar os chamados ;colectivos; ; grupos armados ; e os paramilitares.
O ex-chanceler uruguaio Luis Almagro, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), condenou fortemente a repressão em Caracas. ;Brutal selvageria policial na Venezuela, a qual não mede consequências. O governo deve frear a onda de repressão e de violência já!”, escreveu nas redes sociais. Hoje, ele se reunirá com Julio Borges, presidente da Assembleia Nacional, de quem receberá um documento sobre a crise no país.



Depoimento

Censura
e medo


;Há 17 anos, Hugo Chávez começou a atacar os meios de comunicação e os jornalistas. Tais ataques têm aumentado nos últimos meses. O governo e os grupos paramilitares reprimem a imprensa. Eles divulgaram um vídeo no qual afirmam que os jornalistas são alvos, que devem ser neutralizados.

A cobertura dos protestos ocorre em ambiente completamente punitivo. Não há qualquer tipo de garantia para os trabalhadores desses meios. Recentemente, paramilitares sequestraram dois jornalistas. Sob pressão, eles foram soltos. Nos meios de comunicação, há muito medo. Pelo menos 200 emissoras de rádio não tiveram a concessão renovada. A TV Globovisión está com a concessão vencida há três anos. O governo impõe censura à mídia. A maior parte das rádios e das tevês nada informa sobre o que ocorre no país.

Apesar de tudo isso, os jornalistas se mantêm nas ruas, cobrindo as manifestações, e precisam se proteger da Guarda Nacional Bolivariana, que lança bombas de gás lacrimogêneo contra a imprensa. O Sindicato Nacional de Jornalistas da Venezuela levantou a voz para denunciar a violação à liberdade de imprensa.;




Delvalle Canelon, repórter da Globovisión e secretária-geral do Sindicato Nacional de Jornalistas da Venezuela



Duas perguntas para

Freddy Guevara, vice-presidente da Assembleia Nacional e coordenador nacional do partido Voluntad Popular

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